(13) nas trincheiras da esperança
abraçados às marés,
libertos nas areias dos mares,
estamos nas trincheiras da esperança,
olhar noturno de quem
quer lua, mas com a terra,
se não tivermos a terra,
para que queremos a lua.
vampiros avançam pelos campos
e o trigo não floresce,
nem o milho reluz,
porque as espigas são correntes de água,
que desaguam nos ribeiros.
a esperança dourada, são violas de
arco-íris,
semeando a vontade,
forjando as harpas de canções de poesia.
(12) Adeus Salva Almas
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| José de Almeida, o Salva Almas (esquerda) |
Adorava estar a viver nas calmas
Fazer coisas simples como caminhar à beira-mar
Ouvir um músico de rua e bater-lhe palmas
Parar numa esplanada e beber até me saciar.
Ao invés vivo numa correria e cheio de perigos
Com um ruído de fundo que só me causa traumas
Deito-me sem ter tempo para visitar os meus amigos
Acordo e dizem-me que morreu o Salva Almas.
Cai-me uma lágrima porque dele não me despedi
E sentindo um aperto enorme no coração
Sinto-me triste e pesaroso pelo que não vivi
Tudo porque ainda não aprendi a dizer que não.
Aníbal Seraphim
(11) O cantar do Emigrante
Vem, menina, ouvir o nosso cante,
Por sobre a seara a ondular;
E eu cá em terra distante,
Ao meu Alentejo quisera voltar.
Chora o meu coração, menina,
Da lonjura amargurado,
De não mais teus olhos ver, trigueirinha,
De te não ter a meu lado.
Mais feliz é o pardalito, ceifeira,
Que à tua mão busca o sustento,
Que o teu amor em terra estrangeira
Buscando o nosso cante no vento.
Abala, ó vento, pelas serranias,
Vê não te atardes no mar;
Leva-lhe em lindas melodias
As lágrimas do meu cantar.
Traz-me o cheiro das suas tranças
De trigo e feno entrançadas,
P’ra me eu lembrar cá por estas Franças
Das nossas ternas madrugadas.
Ó minha aldeia caiada,
Com todo o estio por diante,
Não queiras ser como a cidade,
Onde nem o melro sabe o cante.
Hei-de voltar à minha terra,
Não se me canse a alma de viver;
Que a trigueirinha à minha espera
Ao Alentejo me vai prender.
Ana Ferreira da Silva
(10) é preciso dizer não
por entre as espingardas infames,
que matam dia a dia,
os homens e mulheres da paz,
é preciso dizer não.
por entre os aviões,
lançando bombas sobre o sol,
e levantam a húmida tempestade,
é preciso dizer não.
perante o esmagar dos lírios,
e os drones da mesquinhez do dinheiro,
sugando o húmus à terra,
é preciso dizer não.
perante os neurónios esmagados,
dos senhores que fazem a guerra,
em nome duma paz, jogando ténis,
é preciso dizer não.
perante aqueles que sonegam a verdade,
e da mentira fazem azes,
sabendo que os passaritos não cantarão assim,
é preciso dizer não.
perante os domadores das ciências,
e da história se esquecem,
como se tivessem os arquétipos da vida,
é preciso dizer não.
é preciso dizer não, com letras visíveis,
de quem não se vende,
nem se atraiçoa,
o vento sopra sempre, como queremos.
(9) poema no dia da poesia
o poema não é surdo,
mas se o fosse,
derramaria sobre os nossos braços
a sua propositura,
os lamaçais sucumbiriam,
aos raios,
dos relâmpagos presos por fitas,
(sim por fitas),
e deles sairiam estrelas,
perfumando o odor das pétalas,
ai, ai, primavera, quem te dera ser poema,
o inverno jamais veria a sua perturbação.
(8) TROVA de te buscar
Busquei-te pelos campos em flor,
Despontava a Primavera;
Anelando por teu amor,
Por longes caminhos viera.
Rubra papoila colhi
Das ondas de oiro da seara,
Por assim ofertar a ti
Sangue que o coração chorara.
Das fontes de Maio eu provei
Livres, pelas fragas cantando;
Por mui rudes trilhos penei,
Sol e as estrelas me guiando.
Pés feri em dez mil agruras,
Ficou-se-me a fímbria nas giestas
Do vestido, e nas alturas,
Sinos perdi pelas florestas.
Rachando vai meu bordão,
A alma rende de tantas luas;
Resta agora o coração
Se me vierem feras cruas.
E eis que avistando vou
Ameias perdidas na bruma;
Sei que me esperas, pois sou
De ti amada, que outra nenhuma.
E é por ti que a trova canto,
Deste anelo de te amar,
Cativos de suave encanto
No jardim de Aziza ao luar.
Ana Ferreira da Silva
25 de Dezembro de 2024
(7) A Despedida
Perguntas-me quanto te quero eu...
- E por que partes, se tanto te quero?
Que responder, amigo, às aves do céu,
À primavera, ao coração sincero?
Tua voz recordo na canção das fontes,
Teus olhos na estrela da madrugada;
Nossos caminhos por agrestes montes,
Nas pedras sangrentas de cada estrada.
Sempre a luz nasceu da noite mais fria,
Mas não há partida sem dor, amigo;
Pudesse, e de ti não me apartaria...
Hoje a bandeira do destino sigo.
Em sonhos buscarei tua companhia...
Sonha tu comigo, como eu contigo!
Ana Ferreira da Silva
(6) O Silêncio num Mundo que Não Se Cala
Num mundo que não pára de falar,
o silêncio tornou-se raro.
Confundem-no com vazio,
com distância,
com ausência.
Mas o silêncio
nunca foi falta.
Há silêncios que curam.
Silêncios que amparam
sem exigir explicações.
Silêncios que ficam
ao lado da dor
quando as palavras
já não sabem o caminho.
Vivemos cercados de ruído:
vozes, pressa,
opiniões atiradas ao vento,
respostas antes da escuta,
frases ditas
só para não deixar espaço.
E, no entanto,
é no silêncio
que o coração respira melhor.
É nele que a verdade
se aproxima devagar.
É nele que o olhar
reaprende a ver.
É nele que a palavra
recupera o seu peso.
Talvez o verdadeiro valor do silêncio
esteja precisamente aí:
lembrar-nos,
no meio de tanto barulho,
que o essencial
não precisa de gritar.
Inês Alhandra
(5) O SORRISO
O sorriso é sol de manhã
Clareia o coração.
É ponte leve e humana,
Nascida da emoção.
Cabe num gesto pequeno,
mas muda o dia inteiro.
É flor nascendo serena
no rosto de um companheiro.
Sorrir é dar sem cobrar,
é acender sem gastar luz —
um simples jeito de amar,
que o próprio amor conduz.
Maria Teresa Portal Oliveira
(4) as mulheres no caminho da paz 
quantas crianças, quantos homens, quantas mulheres,
figuram na lista dos mortos,
pela força das armas,
lançadas sem razão,
(mesmo que razão houvesse).
os ribeiros não sabem das margens,
e os rios não são de paz.