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| Cartaz oficial da DGLAB, de autoria de Carolina Celas (menção especial no Prémio Nacional de Ilustração, 2024). |
Dia Mundial do Livro
O desafio para este mês era livre, um pequeno texto, com cerca de 20 linhas sobre o que quisessem, seja um livro que vos tenha marcado, um pequeno conto de vossa autoria, um pensamento...
Neste dia, em prosa, celebramos a palavra escrita como forma de comunicação, de expressão de sentimentos, de companhia, de forma de viajar (pela memória, por exemplo), etc.
Lembramos que até ao dia 15 de Maio teremos uma votação a decorrer para encontrar o poema favorito dos leitores.
Como habitualmente, as votações serão feitas usando a caixa de comentários (já sabem que tem moderação pelo que os comentários/votos não ficam visíveis de imediato), não há limite para o número de vezes que podem votar ou em quem votar, apenas se espera algum bom senso (e apesar de aceitarmos que no blogue as votações ficam anónimas, só validaremos os votos após recebermos por email a identificação do votante e forma de contacto, assim que lhe atribuirmos um número).
O autor do texto mais votado escolherá do nosso catálogo de Prosa um exemplar do livro que mais lhe agradar; e o mesmo sucederá com o comentário/voto sorteado de entre os votantes identificados.
(13) O livro,
o dia do livro e o Livro da Vida!
O livro, o dia do livro e o
Livro da Vida! Qual é a natureza do Livro da Vida e qual é sua existência real?
Para muitas pessoas, pode parecer uma metáfora ou uma lenda sem sentido,
enquanto outros acreditam em sua existência apesar de nunca o terem visto
fisicamente. Eu encontro me entre aqueles que anseiam ter seus nomes inscritos
neste livro de importância suprema. Diversos livros são mencionados
globalmente, e vários livros sagrados são citados na Bíblia, como o Livro da
Aliança, o Livro da Lei, o Livro dos Reis, o Livro dos Registos, o Livro da
Memória e o Livro do Senhor, entre outros.
No entanto, destaca-se um
livro de relevância singular: o Livro da Vida. Conforme Apocalipse 20:12, este
livro contém os nomes daqueles que o ocupam. Reconhecer e aceitar o Filho de
Deus como único Senhor constitui uma promessa de ter o nome incluído no Livro
da Vida.
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| A árvore que simboliza a vida, e que também está na origem do livro (papel). |
Ilda Pinto
Almeida
(12) As
aventuras do Seraphim
Faltavam menos de 3 horas
para celebrar o Dia Mundial do Livro e o velho sonho de deixar um legado
através da escrita para a posteridade reacendeu. Não para os filhos, até porque
a vida não me permitiu que os vislumbrasse ter, mas para… Para quem tivesse acesso
a esse legado, para quem gostasse de ler as minhas aventuras.
O problema é que as aventuras
são tantas, mas tantas que em menos de 3 horas seria uma tarefa difícil
escrever todas. Mesmo assim, tinha de começar por uma, e qual delas seria? E muitas
delas pouca gente acredita que realmente aconteceram.
Por exemplo, quando em 2007 o
Donald Trump me conheceu. Sim, foi ele que me conheceu e não o contrário! No
último de viagem a Nova York visitei a Trump Tower e ao ver uma parede dourada
de grande dimensão que jorrava água como uma cascata, como é habitual captar
imagens de forma não convencional, deitei-me com as costas no chão e a objetiva
virada para cima para ver o efeito, mas raios, aquilo era difícil com tanto dourado,
mas lá consegui. Reparei que estava uma figura enorme, em pé, a observar-me.
Com os meus 1,86mt
levantei-me e ficamos quase face a face. Sem diálogo, mostrei a fotografia e a
figura disse “good one”, cumprimenta-me e disse “have a nice day”.
Perguntei à minha amiga
espanhola que estava comigo “¿quién fue?”
e encolheu os ombros. Pouco depois no piso inferior havia uma vitrina com
livros e revistas e demos de caras que afinal aquela cara era a cara do Donald
Trump. Foi pena não termos tirado uma foto, assim ninguém acredita nesta
história, tirando a amiga espanhola.
Também podia contar quando
fui convidado pelas Spice Girls para uma festa privada em Paris, mas para essa
história não tenho mesmo nenhuma testemunha e ninguém acreditará.
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| A tal foto tirada a partir do chão |
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| Exterior da Trump Tower (2007) |
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| O autor junto da "maqueta" da Trump Tower |
Aníbal Seraphim
(11) Liberdade
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| Esta imagem tem direitos |
Neste mês de abril, há que
refletir “liberdade”. Por tal, apresento a pintura de Samuel Jennings (1792)
“Estudar para a Liberdade Incentivando a Emancipação dos Negros”, da Biblioteca
da Companhia da Filadélfia. Seguindo instruções de Benjamin Franklin, ao
contrário das alegorias guerreiras francesas, esta pintura aborda a liberdade
através da emancipação e do conhecimento. A Liberdade não está a lutar, mas sim
a oferecer livros a um grupo de homens, mulheres e crianças negras
recém-emancipadas, sugerindo que a verdadeira liberdade só é plena quando
acompanhada pelo acesso à educação.
E se me perguntarem qual a
palavra mais necessária para a liberdade, direi que é o "Não" como
ferramenta, tal como defendia Saramago para evitar o conformismo e o
dogmatismo.
Nina Pianini
(10) Partilha
Hoje vou partilhar convosco a
minha reflexão desta manhã, na esperança que ela possa ser tão útil para vós,
como foi para mim.
Acordei triste, pois vários
acontecimentos do dia de ontem me irritaram e me tiraram a paz.
Enquanto fazia a higiene
matinal pensava em todos os acontecimentos negativos da minha vida e nas
pessoas que os tinham causado e quase senti pena de mim Dispus-me a mudar as
coisas, a impor-me mais e pensar um pouco mais em mim.
Confusa entre o esquecer uma
vez mais os ressentimentos ou alterar o meu modo de agir, pedi a Deus que me
ajudasse.
Abri a Bíblia e eis que me
surge o Salmo 116 que diz logo no início “Amo o Senhor porque Ele ouviu a voz
do meu lamento: Porque inclinou para mim os Seus ouvidos no dia em que O invoquei”.
E à medida que fui lendo e
meditando, foram-se esclarecendo as minhas dúvidas. Problemas, sempre os terei
como toda a gente, mas irritações não devo tê-las. Elas são veneno para o meu corpo
e para a minha alma. De irritaçãozinha a irritaçãozinha vou-me tornando amarga,
infeliz e fazendo amargos e infelizes os outros.
Então só vi um remédio para
isso: pedir diariamente a paz e a alegria que são alguns dos frutos do Espírito
Santo que habita em nós. E em todos os segundos do dia ter a certeza que o
Senhor escuta a minha prece, pois inclinou para mim o Seu ouvido, como diz o
Salmo. Que maravilha, pois como sou fraca e pequena Ele quis inclinar-se para
melhor chegar até mim.
Então com a alegria da
certeza que o Senhor me estava a ouvir, não resisti a cantar a canção.
“Com Tuas mãos chagadas,
Senhor
Cura o meu coração Bom Pastor
Restaura a minha alma
Renova meu ser
Cura-me, liberta-me
Refaz meu viver!”
E a paz voltou de novo ao meu
coração e o dia teve outro sentido. Espero repetir a experiência amanhã e, se
conseguir, repeti-la todos os dias da minha vida.
Maria do Rosário
Cunha
(9) Na imensidão
do infinito, a Paz
Procura Deus na imensidão do
infinito, esse infinito sem fim, necessário é levantar os olhos para o alto,
nesse alto onde Deus está.
De lá observa o mundo tão
arruinado pelo ódio, a violência, que faz do ser humano sofredor eleva para lá
o teu olhar, de onde nos vem a paz.
Abeira-te desse Deus, com
humilde oração, que ela chegue com grande clamor, a esse infinito que perdemos
de vista. A oração, é o bálsamo para encontrar a verdadeira paz. Levanta os
olhos, com verdadeiro clamor, lá no infinito Deus acolhe com um grande sorriso,
eleva-a com grande amor.
Adosinda Dias
(8) o menino
que corria na rua
a rua terminava. não tinha
qualquer seguimento. de forma que se jogava a bola intermitentemente. eram os
miúdos dos bairros. e outros de outros lados. tudo corria para aquela rua. até
tinham um grupo. o grupo da bola era “os elienses”. o outro grupo era “os
sombras”. mas não vamos falar disso. acontece é que a rua passou a
ligar a outra. que lhe era perpendicular. o terreno à esquerda viu a construção
de prédios. o da direita não. ainda bem que ficaram as os balizas. que eram os
portões das duas quintas maiores. existentes.
a rua tinha dois candeeiros.
de iluminação pública. com lâmpadas normais. nada do que se usa atualmente.
iluminavam um pouco. ora era excelente para brincar ao batemarra. de dia era o
futebol. o tal das duas balizas. à noite as escondidinhas. ou o batemarra. um
dois três. um escondia os olhos no poste da iluminação. os outros escondiam-se.
o dos olhos escondidos ia atrás dos outros. ganhava quem descobrisse os outros.
ou então quem chegasse primeiro ao poste.
um dia o menino do poste foi
à procura dos outros. e a correr. pela rua abaixo até encontrar a outra
perpendicular. só que já lá passavam automóveis. o menino deu de frente contra
um. o carro parou. o menino não sofreu nada. mas deu duas voltas a correr. e
desapareceu. voltou para o poste de iluminação.
joaquim armindo
22/4/2026
(7) o.s. – mas
que é isso
era um muro. baixo e pequeno.
mas era onde o senhor júlio cultivava as suas rosas. o senhor júlio era o pai
do fernando. que viria a ser bispo da igreja lusitana. também morava no bairro.
hoje era capaz de se chamar uma ilha. não importa o nome. aquilo era um bairro.
casas com quintal. onde se cultivavam muitas frutas. à sua direita. da casa do
senhor júlio ficava a casa da quininha. e à esquerda a casa da
fernandinha do senhor samuel. era assim que nos tratávamos. todos acabávamos os
nomes com inha. por isso era um bairro. Não uma ilha. não estávamos isolados.
mas como dizia havia um muro.
o muro tinha entre as suas paredes frinchas. era numa delas que guardávamos as
mensagens. secretas. só os membros do o.s. sabiam. pertenciam três ou quatro de
nós ao grupo. assim brincávamos. na rua. ora bem. o.s. queria dizer “os
sombras”. não sei se é a primeira vez que estou a revelar o segredo. se é está
revelado.
tínhamos um alfabeto próprio.
o a equivalia a um sinal. não me lembro qual. e assim por adiante. escondíamos
tudo na frincha. aberta do muro. pequeno. para que isso servia. é uma
pergunta séria. como é sempre sério quando uma criança. com outras brinca. nós
brincávamos através do muro. pequeno. tinha frinchas. pá guardávamos os
segredos. com linguagem própria. e ninguém sabia. nem os do bairro. só nós. e
isso era uma grande e sofisticada forma de ser.
(6) A GRALHA E A PAPAIA
(baseado num episódio real)
Em África os bichos entendem-se. Por vezes,
as crianças também entendem os bichos. Eu era criança, mas não entendi a
conversa entre a gralha e o meu pastor alemão Thor...
O Thor era uma fera implacável, terror dos
gatos da vizinhança; por outro lado, nunca fez menção de atacar bicho que
voasse.
Naquela manhã, o Thor conversava com uma
gralha empoleirada no corrimão da varanda; ou melhor, o Thor escutava com
atenção, pois a gralha, fazendo jus ao nome, não se calava – não se calava, e
só depois compreendi o que andavam os dois a tramar!
“Tu sabes que eu adoro papaias! E aquela
ali está tão madurinha... Que hei-de fazer?”
É verdade, nós tínhamos uma papaieira no
jardim, encostada ao muro onde o mainato da casa ao lado poisava o ferro a
carvão; e também é verdade, que tal como a gralha, o meu pai adorava papaias, e
aquela, mais especificamente, estava-lhe na mira, assim como lhe estaria na
mira da pistola a gralha que rondava a papaieira.
Eu, o meu irmão e o mainato da casa ao
lado, íamos enxotando a gralha enquanto aquela específica papaia, grande como
uma abóbora, corada como um sol, ia amadurecendo.
Quando chegou o grande dia de colher a
papaia-abóbora-sol, o meu pai foi buscar a escada de madeira que guardávamos na
arrecadação; mas assim que encostou a escada à árvore, a grande papaia
soltou-se, e com um grande (PLOF!) esparramou-se no chão, revelando, na “face
oculta”, um buraco redondo, largo e profundo, enquanto acima do telhado da arrecadação,
a gralha se afastava rapidamente. Pareceu-me ver o Thor piscar um olho enquanto
abanava a cauda, bastante divertido com a nossa perplexidade.
Ana Ferreira da Silva
(5) parecia
quase um quadrado
passar um dia lá dentro vá
que não vá. agora uma semana. após semana. mês após mês. ano após ano. só quem
nunca esteve na guerra. é que a defende. o quartel era mesmo um quadrado.
parecia. mas creio que era mesmo. sabem o que ver uma luz parecia com um
foguete. não sabe quem lá não esteve. ou uma luz provinda de um fogo de
artificio. era do in. isto é. do inimigo. mas eu não tinha inimigos. então ao
anoitecer. corremos todos de armas em punho para defender o quadrado. o
quartel. quero dizer. mas o in tinha outros planos. aquilo era um sinal. para
atacarem uma escolta militar no outro dia. onde morreram jovens. militares à
força.
mas notem. sabem o que é
viver num quartel. cercado. a diante havia povo. mas nas palhotas. casas
frequentadas por alguns de nós. onde. certamente. haveria ins. tantos que
vinham para nos lavar a roupa. e também. diga se. para levarem o que sobrava da
nossa comida. e em latas. mais à frente uma proibição total de darmos os
restos. mas sabem porquê. era para alimentarem os guerrilheiros. sim os ins.
assim ninguém comeria.
mas sabem o que é a guerra.
em nome de princípios. mas nós não sabíamos porquê. a guerra. um quadrado. um
quartel. uma hora. outra hora. um dia. outro dia. outro dia. um mês. outro mês.
um ano. mais um ano. um tiro. outro tiro. mas porquê. em nome do meu país. não
era. em nome de outros interesses. de quem não queria ir à guerra.
joaquim armindo
22 de abril de
2026
(4) uvas do
senhor alcino
o senhor alcino tinha uma
quinta bem grande. penso que só lá entrei uma ou duas vezes. pelo portão. que
até era uma das nossas balizas. do campo de futebol. claro. mas o senhor alcino
tinha outras coisas. uma delas era um aparelho de vento. metálico. sugava as
águas que lá passavam. antes de continuar. para que saibam eu não conhecia. nem
nunca cheguei a conhecer o senhor alcino. não sei bem se o nome era um
aparelho. era mesmo muito grande. tinha umas pás. giravam com o vento. e daí
tiravam água. das profundezas da terra. tinha um depósito a meio. que
conservava a água. e daí regava toda a quinta.
mas a quinta do senhor alcino
tinha outra coisa que mais interessava. era uma videira. e dava uvas. ora bem.
eram as uvas que mais nos interessava. não porque faltassem uvas às nossas
mesas. mas era o prazer de assaltar a quinta. do senhor alcino. assim íamos por
o muro da rua afonso albuquerque. era mais fácil. aí o muro era mais baixo.
tinha um gradeamento a defendê-lo. de nós claro.
vai daí sacávamos os cachos
de uvas. as criadas do senhor alcino ficavam incomodadas. ou mostravam isso. e
não ficavam. o senhor alcino não sei. nem nunca soube. os cachos de uvas que
bem sabiam. eram as uvas da quinta do senhor alcino. se fosse hoje não o
podíamos fazer. já não existe a quinta do senhor alcino. em seu lugar um prédio
de muitos andares.
joaquim armindo
22 de abril de
2026
(3) NO TEMPO
DA PANDEMIA
No tempo da pandemia, quando
o mundo parecia suspenso, uma poesia saltou para o papel. Chamava-se “A fome” e
alertava para as desigualdades sociais — feridas expostas por uma crise que
atingia todos, mas não por igual.
A poesia ganhou o primeiro
prémio. Como gesto simbólico, a autora foi convidada a plantar uma árvore de
fruto e, junto às suas raízes, colocou uma cópia do poema — como se as palavras
pudessem alimentar a terra.
O tempo passou.
A pequena laranjeira cresceu
num jardim onde não era fácil ser vista. À sua volta, árvores altas e
imponentes, mas sem fruto, roubavam-lhe a luz e escondiam-na do olhar de quem
passava. Sentia-se só, quase esquecida.
Até que um dia o jardim foi
limpo. Livre da sombra, a laranjeira ergueu-se com orgulho e decidiu mostrar ao
mundo aquilo de que era capaz. Nesse ano, deu laranjas grandes, perfeitas —
laranjas de umbigo, cheias de vida.
Não estiveram debaixo do
envelope da Páscoa, como manda a tradição da autora — afinal, são a única fruta
do inverno, símbolo da união e harmonia familiar, como os gomos que se juntam
num só fruto. Nesse lugar esteve outra.
Mas a laranjeira não ficou
esquecida.
Ficou uma fotografia e ela
toda arrebitada no jardim. É a única no meio das japoneiras. A camélia é a flor
do Porto e a autora é tripeira. Com ela, ficou também a memória de que aquilo
que nasce de palavras pode, um dia, dar fruto.
Maria Teresa
Portal Oliveira
(2) trabalhar
e pagar ainda
traziam o fruto do seu
trabalho anual. trabalho duro. era braçal. levavam à cabeça. ou em carritos
muito pequeninos. puxados pelos seus braços. esguios. pobres. satisfeitos pela
sua contribuição. era o algodão. o produto do seu trabalho anual. mas lá iam.
com os seus filhos. e filhas. que eram muitos. na minha aritmética. claro.
chegados. tinham à sua espera um inusitado cenário. o mercado era um depósito
de armas. soldados e seus oficiais. de arma em punho. era a gê três. eu era um
deles.
numa balança eram pesadas as
quantidades. de algodão. o algodão que era uma vida. de um ano. as crianças
alegres. pudera iam sair de casa. dar um passeio. levar o algodão. este tinha
sido o seu trabalho. também. o seu vozerio confundia-se. com o dos
trabalhadores dos senhores. do algodão. tantos kilos. foram colhidos. nunca
soube se as balanças pesavam as quantidades certas. para os senhores. do
algodão. sim. para aqueles que trabalharam o ano inteiro. não.
pesadas as quantidades eram
declarados. tantos kilos. monta a tantos escudos. menos o débito de quem
produzia. eram tantos escudos. como os senhores do algodão. eram beneméritos.
reduziam a esta carga. os débitos da produção. sendo assim. ficariam a dever.
tantos escudos. mas pagava-se. tantos escudos. com os débitos a subir. mas a
levarem em mão. alguns escudos. para o ano seguinte aumentavam as dívidas.
assim se faziam as contas. sob as armas. gê três.
joaquim armindo
22 de abril de
2026
(1) conversão
é deixar duas mulheres
um dia destes pergunta um
missionário. se um natural de um país africano se der a jesus. tiver três
mulheres que faremos. dizemos-lhe que tem de deixar duas. ficar só com uma. ou
continuar com as três. é que na fé cristã só pode ter uma mulher. mas ele
deu-se completamente a jesus. só tem esta dificuldade. e o missionário pensava.
ele não quer. não pode. render-se a jesus. de acordo com a nossa doutrina.
tendo três mulheres. então o missionário pensava. pensava no que diria ao
senhor.
se o missionário lhe dissesse
que tinha de renunciar a duas. o senhor cumpria a doutrina. se lhe dissesse que
poderia ficar com as três. não cumpria a doutrina. por outro lado. se dissesse
para deixar duas. então elas iriam para a miséria. se dissesse que poderiam ser
as três. não cumpriria a doutrina. e qual iria escolher para ficar com ele. uma
pergunta. não uma resposta. não existiam dúvidas. o senhor era cristão. não
cumpria. porém. uma condição. ter três mulheres.
se ficasse com as três.
cumpria os ritos da sua tribo. da sua consciência. se ficasse só com uma
trairia a sua tribo. mais trairia a sua cultura. então para se converter a
jesus tinha de lançar na miséria duas pessoas. e certamente as três. porque os
seus não lho perdoariam. que fazer. eis a pergunta. uma pergunta. sem resposta.
joaquim armindo
22 de abril de
2026