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sexta-feira, 8 de maio de 2026

João Couto Ribeiro, autor de "O Menino cor de Aleixo", em entrevista

 

O Prémio de Conto Infanto/Juvenil Tecto de Nuvens tem alguns premiados, mas tem um número enorme de vencedores. São vencedores todos aqueles que finalmente têm a coragem de retirar da sua imaginação as muitas histórias que lá têm para contar.
Apresentar essas histórias para serem lidas é um primeiro, e enorme passo, não interessa o resultado.
Estando o génio fora da garrafa/lâmpada, não há volta a dar, não volta para lá.
O objectivo do nosso Prémio é apresentar mais autores ao mundo e, mais uma vez, conseguimos esse objectivo na última edição do Prémio (2025). Um bom exemplo desse sucesso é João Couto Ribeiro. Foi um dos finalistas, não chegou ao prémio, mas conseguiu o objectivo: ser lido e ser publicado.
O seu actualíssimo e pertinente "O Menino cor de Aleixo" é agora o nº 9 da colecção "Petizes Felizes!".
João Couto Ribeiro, 55 anos, habituou-se a ver o mundo através da sua câmara fotográfica e talvez por esse motivo tenha conseguido apresentar tão bem o retrato da solidão/anonimato de se estar no meio dos outros sem se ser visto - situação que todos já teremos experimentado -  e a mesma solidão de termos todos a olhar para nós, mas verdadeiramente sem ninguém nos ver. O equilíbrio, aprendemos com o menino Aleixo, vem de dentro, as respostas estão também em nós. Contudo, independentemente da idade, por vezes é importante a ajuda da fada-madrinha, que somos nós todos, enquanto sociedade.
A ilustração da capa, é também ela um retrato, e como diz o ditado "Filho de peixe sabe nadar", aqui é uma filha, Mariana Ribeiro, que criou esta magnífica ilustração para o conto do pai.
Mas vamos conhecer melhor este novo autor, a sua inspiração e as suas aspirações. 
João Couto Ribeiro, de voz própria e na primeira pessoa:


  Conte-nos como e porquê começou a escrever, por paixão ou por necessidade?


Comecei a escrever por paixão, embora no contexto de uma alteração na minha vida profissional. Surgiu-me a ideia de voltar a escrever por um mero acaso e imediatamente ocorreu-me uma história infantil que desenvolvi até dar origem a “O Menino Cor de Aleixo”. Gostei tanto que não parei mais de escrever.


  Qual o papel que a escrita ocupa na sua vida?

Neste momento, tem um papel fundamental. Tento escrever todos os dias, preciso de escrever todos os dias. É de onde retiro o prazer que me vai alimentando a alma e que me tem ajudado a ultrapassar momentos menos positivos da minha vida. É a rotina que me satisfaz e me completa.


  Sempre sonhou publicar um livro?


Não propriamente. Enquanto fotógrafo (atividade que desempenhei toda a minha vida profissional), sempre desejei publicar algo, como uma compilação dos meus melhores trabalhos ou sobre temas específicos que às vezes me ocorriam, mas tal nunca sucedeu. Em termos de romance ou conto, confesso que foi algo em que nunca pensei seriamente. Agora, não me sai da cabeça.


  Qual é a sensação que tem ao ver, agora, o seu livro nas mãos?


É uma sensação ótima pois tenho um carinho muito grande pelo “Aleixo”, por ter sido o meu primeiro conto e porque acho sinceramente que é uma história que precisava de ser partilhada. Penso que contém alguns valores esquecidos que convêm ser recordados até à exaustão. O mundo atual bem precisa de volta a acreditar em certos conceitos.


  Tem algum projecto a ser desenvolvido, actualmente? Pensa publicar mais algum livro? Continua a sentir vontade de escrever?


Sim, como disse anteriormente, não consigo parar de escrever. Tenho várias outros contos infantis prontos e dois romances. Isto em muito pouco tempo. Gostava muito de continuar a publicar livros, luto diariamente para que isso aconteça e é o meu grande objetivo do momento. Mas, infelizmente, nenhum está ainda na calha. A vontade de publicar e de estabelecer uma carreira na literatura não parece ser tarefa fácil na atualidade.


  Fale-nos um pouco sobre o seu livro.

É um livro sobre um menino que é infeliz por não ter amigos e que luta pelo seu lugar. Como acontece com tantos, é vítima de bullying e tenta adaptar-se para ser aceite. Só que, quanto mais tenta, parece ficar ainda pior. Acaba por ter de pedir ajuda externa (personificada na fada madrinha) pensando que só um milagre o poderá ajudar.

Como quer ser diferente deseja mudar para uma cor que o destaque perante os outros, uma cor que ainda não exista. Só que as coisas se tornaram mais difíceis do que ele imaginara.
Ao longo da história vai aprendendo que a força para a mudança terá de advir do seu interior e que a sua aceitação pelos demais dependerá de ele se sentir bem consigo próprio. Julgo que é uma mensagem bonita e importante numa época de desafios tão grandes à personalidade das crianças. Tento incutir alguns princípios de bondade e amizade que nunca são demais recordar.

  Existe alguma parte do livro, em particular, que goste mais. Porquê?

O final, julgo que tem alguma grandiosidade poética. Se consegui passar devidamente as emoções, acredito que mexerá com os leitores. Mas deixo a cargo deles a comprovação desse facto.


  Indique as razões pelas quais aconselharia as pessoas a ler o seu livro? O que acha mais apelativo no seu livro?


É uma história séria, mas contada com humor e ligeireza. Foca-se em assunto importantes, e até dramáticos, sem nunca se tornar demasiado triste pois é sempre acompanhada pela luz da esperança. Tem uma linguagem acessível, mas não infantilizada, que acho adequada para serem os próprios leitores, qualquer que seja a idade, a encontrarem as respostas para os assuntos que levanta nas suas próprias mentes.


  Qual é o seu estilo de escrita ou que tipo de mensagem gosta de passar no que escreve?


É tudo muito variado. Gosto de me desafiar a escrever sobre todos os temas e nas formas mais variadas: quer seja para crianças ou para adultos. Foco assuntos sérios, outros simples, porém sempre com muita intensidade. Escrevo com uma boa dose de humor misturada com uma forte carga sentimental, transmitindo muita ‘alma’. A existir um fio condutor entre a diversidade de temas que escrevo, talvez seja o de um alerta para os vários perigos do presente – que já estava presente no “Aleixo”. Não sou um crítico da sociedade atual, simplesmente gosto de expor os seus perigos, tentando, de alguma forma, apresentar possíveis soluções. Se é que isso é possível.


  Qual o papel das redes sociais na vida e na divulgação da obra de um autor? E na sua?


Acredito que seja fundamental para os grandes autores. Já tive o privilégio de falar com alguns e todos eles admitem que não é fácil propor um conceito a uma editora sem demonstrar forte presença nas redes sociais. Mas na pequenez do meu mundo, uso-as de forma modesta. Comecei há muito pouco e estão ainda numa fase inicial de divulgação. Terão que evoluir, tal qual a minha escrita e a minha obra.


  Gosta de ler? Que tipo de leitor é que é?


Não tenho hábitos de leitura muito enraizados. Tento fazê-lo sempre que posso, mas depende muito das fases e da disponibilidade mental. Há alturas em que leio um livro em poucos dias, outras demora semanas. E nem sempre a ‘culpa’ é do autor.
Obviamente que desde que comecei a escrever com maior frequência tento ler o mais possível. É fundamental sentir a liberdade e a criatividade dos outros para desbloquearmos a nossa.




Pode saber mais informações sobre o livro aqui.
Livro à venda nas principais plataformas nacionais e internacionais.
Pode encomendar o livro enviando email para loja@tecto-de-nuvens.pt


 

sábado, 25 de abril de 2026

Um dia com... "Melissa de Aveiro no Dia do Livro"

  "Um dia com..." é uma espécie de página de diário, real ou fictício, aqui cada autor pode fazer o relato de um episódio, fazer uma reflexão, colocar um pensamento, uma foto...

Estará disponível todo o ano, independentemente de outros projectos a correr aqui no Blogue. E está aberto a todos, se tiver algo que queira partilhar, pode enviar para geral@tecto-de-nuvens.pt ou tectodenuvens@hotmail.com indicando no assunto "Um dia com...". Podem enviar quantas participações quiserem.

A autora Melissa de Aveiro recebeu convite para no Dia do Livro passar pelo Colégio "O Gu e a Tita", na Praia da Vitória (Ilha Terceira), e levar consigo a Inês e restantes personagens do livro "Inês e o mistério do Monstro das Meias".


Feita a leitura a estes muito atentos alunos (https://www.facebook.com/hashtag/ogueatita), foi ocasião de desafiar estes pequenos artistas a dar corpo ao temido monstro que faz desaparecer as meias! É assunto para grande susto e estes artistas transmitiram essa indignação para o papel.
Ficam alguns exemplos:










Se é humano e já foi vítima deste temido ladrão, saiba como a pequena Inês conseguiu desvendar tão famoso mistério.
"Inês e o mistério do Monstro das Meias", de Melissa de Aveiro, está à venda na nossa loja online e nas principais plataformas online nacionais e internacionais.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Desafios de autores para autores: Abril - Dia Mundial do livro

 

Cartaz oficial da DGLAB, de autoria de Carolina Celas (menção especial no Prémio Nacional de Ilustração, 2024).

Dia Mundial do Livro

O desafio para este mês era livre, um pequeno texto, com cerca de 20 linhas sobre o que quisessem, seja um livro que vos tenha marcado, um pequeno conto de vossa autoria, um pensamento...
Neste dia, em prosa, celebramos a palavra escrita como forma de comunicação, de expressão de sentimentos, de companhia, de forma de viajar (pela memória, por exemplo), etc. 
Lembramos que até ao dia 15 de Maio teremos uma votação a decorrer para encontrar o poema favorito dos leitores.
Como habitualmente, as votações serão feitas usando a caixa de comentários (já sabem que tem moderação pelo que os comentários/votos não ficam visíveis de imediato), não há limite para o número de vezes que podem votar ou em quem votar, apenas se espera algum bom senso (e apesar de aceitarmos que no blogue as votações ficam anónimas, só validaremos os votos após recebermos por email a identificação do votante e forma de contacto, assim que lhe atribuirmos um número).
O autor do texto mais votado escolherá do nosso catálogo de Prosa um exemplar do livro que mais lhe agradar; e o mesmo sucederá com o comentário/voto sorteado de entre os votantes identificados.

(13) O livro, o dia do livro e o Livro da Vida!

 

O livro, o dia do livro e o Livro da Vida! Qual é a natureza do Livro da Vida e qual é sua existência real? Para muitas pessoas, pode parecer uma metáfora ou uma lenda sem sentido, enquanto outros acreditam em sua existência apesar de nunca o terem visto fisicamente. Eu encontro me entre aqueles que anseiam ter seus nomes inscritos neste livro de importância suprema. Diversos livros são mencionados globalmente, e vários livros sagrados são citados na Bíblia, como o Livro da Aliança, o Livro da Lei, o Livro dos Reis, o Livro dos Registos, o Livro da Memória e o Livro do Senhor, entre outros.
No entanto, destaca-se um livro de relevância singular: o Livro da Vida. Conforme Apocalipse 20:12, este livro contém os nomes daqueles que o ocupam. Reconhecer e aceitar o Filho de Deus como único Senhor constitui uma promessa de ter o nome incluído no Livro da Vida.

 

A árvore que simboliza a vida, e que também está na origem do livro (papel).

Ilda Pinto Almeida

 

(12) As aventuras do Seraphim

 

Faltavam menos de 3 horas para celebrar o Dia Mundial do Livro e o velho sonho de deixar um legado através da escrita para a posteridade reacendeu. Não para os filhos, até porque a vida não me permitiu que os vislumbrasse ter, mas para… Para quem tivesse acesso a esse legado, para quem gostasse de ler as minhas aventuras.
O problema é que as aventuras são tantas, mas tantas que em menos de 3 horas seria uma tarefa difícil escrever todas. Mesmo assim, tinha de começar por uma, e qual delas seria? E muitas delas pouca gente acredita que realmente aconteceram.
Por exemplo, quando em 2007 o Donald Trump me conheceu. Sim, foi ele que me conheceu e não o contrário! No último de viagem a Nova York visitei a Trump Tower e ao ver uma parede dourada de grande dimensão que jorrava água como uma cascata, como é habitual captar imagens de forma não convencional, deitei-me com as costas no chão e a objetiva virada para cima para ver o efeito, mas raios, aquilo era difícil com tanto dourado, mas lá consegui. Reparei que estava uma figura enorme, em pé, a observar-me.
Com os meus 1,86mt levantei-me e ficamos quase face a face. Sem diálogo, mostrei a fotografia e a figura disse “good one”, cumprimenta-me e disse “have a nice day”.
Perguntei à minha amiga espanhola que estava comigo “¿quién fue?” e encolheu os ombros. Pouco depois no piso inferior havia uma vitrina com livros e revistas e demos de caras que afinal aquela cara era a cara do Donald Trump. Foi pena não termos tirado uma foto, assim ninguém acredita nesta história, tirando a amiga espanhola.
Também podia contar quando fui convidado pelas Spice Girls para uma festa privada em Paris, mas para essa história não tenho mesmo nenhuma testemunha e ninguém acreditará.

 

A tal foto tirada a partir do chão

Exterior da Trump Tower (2007)
O autor junto da "maqueta" da Trump Tower

 

Aníbal Seraphim

 

(11) Liberdade

 

Esta imagem tem direitos


Neste mês de abril, há que refletir “liberdade”. Por tal, apresento a pintura de Samuel Jennings (1792) “Estudar para a Liberdade Incentivando a Emancipação dos Negros”, da Biblioteca da Companhia da Filadélfia. Seguindo instruções de Benjamin Franklin, ao contrário das alegorias guerreiras francesas, esta pintura aborda a liberdade através da emancipação e do conhecimento. A Liberdade não está a lutar, mas sim a oferecer livros a um grupo de homens, mulheres e crianças negras recém-emancipadas, sugerindo que a verdadeira liberdade só é plena quando acompanhada pelo acesso à educação.
E se me perguntarem qual a palavra mais necessária para a liberdade, direi que é o "Não" como ferramenta, tal como defendia Saramago para evitar o conformismo e o dogmatismo. 

Nina Pianini


 (10) Partilha

 

Hoje vou partilhar convosco a minha reflexão desta manhã, na esperança que ela possa ser tão útil para vós, como foi para mim.
Acordei triste, pois vários acontecimentos do dia de ontem me irritaram e me tiraram a paz.
Enquanto fazia a higiene matinal pensava em todos os acontecimentos negativos da minha vida e nas pessoas que os tinham causado e quase senti pena de mim Dispus-me a mudar as coisas, a impor-me mais e pensar um pouco mais em mim.
Confusa entre o esquecer uma vez mais os ressentimentos ou alterar o meu modo de agir, pedi a Deus que me ajudasse.
Abri a Bíblia e eis que me surge o Salmo 116 que diz logo no início “Amo o Senhor porque Ele ouviu a voz do meu lamento: Porque inclinou para mim os Seus ouvidos no dia em que O invoquei”.
E à medida que fui lendo e meditando, foram-se esclarecendo as minhas dúvidas. Problemas, sempre os terei como toda a gente, mas irritações não devo tê-las. Elas são veneno para o meu corpo e para a minha alma. De irritaçãozinha a irritaçãozinha vou-me tornando amarga, infeliz e fazendo amargos e infelizes os outros.
Então só vi um remédio para isso: pedir diariamente a paz e a alegria que são alguns dos frutos do Espírito Santo que habita em nós. E em todos os segundos do dia ter a certeza que o Senhor escuta a minha prece, pois inclinou para mim o Seu ouvido, como diz o Salmo. Que maravilha, pois como sou fraca e pequena Ele quis inclinar-se para melhor chegar até mim.
Então com a alegria da certeza que o Senhor me estava a ouvir, não resisti a cantar a canção.
“Com Tuas mãos chagadas, Senhor
Cura o meu coração Bom Pastor
Restaura a minha alma
Renova meu ser
Cura-me, liberta-me
Refaz meu viver!”
E a paz voltou de novo ao meu coração e o dia teve outro sentido. Espero repetir a experiência amanhã e, se conseguir, repeti-la todos os dias da minha vida. 

Maria do Rosário Cunha

 

(9) Na imensidão do infinito, a Paz

Procura Deus na imensidão do infinito, esse infinito sem fim, necessário é levantar os olhos para o alto, nesse alto onde Deus está.

De lá observa o mundo tão arruinado pelo ódio, a violência, que faz do ser humano sofredor eleva para lá o teu olhar, de onde nos vem a paz.
Abeira-te desse Deus, com humilde oração, que ela chegue com grande clamor, a esse infinito que perdemos de vista. A oração, é o bálsamo para encontrar a verdadeira paz. Levanta os olhos, com verdadeiro clamor, lá no infinito Deus acolhe com um grande sorriso, eleva-a com grande amor.
Adosinda Dias
 

(8) o menino que corria na rua

 

a rua terminava. não tinha qualquer seguimento. de forma que se jogava a bola intermitentemente. eram os miúdos dos bairros. e outros de outros lados. tudo corria para aquela rua. até tinham um grupo. o grupo da bola era “os elienses”. o outro grupo era “os sombras”. mas não vamos falar disso. acontece é que a rua passou a ligar a outra. que lhe era perpendicular. o terreno à esquerda viu a construção de prédios. o da direita não. ainda bem que ficaram as os balizas. que eram os portões das duas quintas maiores. existentes.
a rua tinha dois candeeiros. de iluminação pública. com lâmpadas normais. nada do que se usa atualmente. iluminavam um pouco. ora era excelente para brincar ao batemarra. de dia era o futebol. o tal das duas balizas. à noite as escondidinhas. ou o batemarra. um dois três. um escondia os olhos no poste da iluminação. os outros escondiam-se. o dos olhos escondidos ia atrás dos outros. ganhava quem descobrisse os outros. ou então quem chegasse primeiro ao poste.
um dia o menino do poste foi à procura dos outros. e a correr. pela rua abaixo até encontrar a outra perpendicular. só que já lá passavam automóveis. o menino deu de frente contra um. o carro parou. o menino não sofreu nada. mas deu duas voltas a correr. e desapareceu. voltou para o poste de iluminação.

 

joaquim armindo
22/4/2026

 

(7) o.s. – mas que é isso


era um muro. baixo e pequeno. mas era onde o senhor júlio cultivava as suas rosas. o senhor júlio era o pai do fernando. que viria a ser bispo da igreja lusitana. também morava no bairro. hoje era capaz de se chamar uma ilha. não importa o nome. aquilo era um bairro. casas com quintal. onde se cultivavam muitas frutas. à sua direita. da casa do senhor júlio ficava a casa da quininha. e à esquerda a casa da fernandinha do senhor samuel. era assim que nos tratávamos. todos acabávamos os nomes com inha. por isso era um bairro. Não uma ilha. não estávamos isolados.
mas como dizia havia um muro. o muro tinha entre as suas paredes frinchas. era numa delas que guardávamos as mensagens. secretas. só os membros do o.s. sabiam. pertenciam três ou quatro de nós ao grupo. assim brincávamos. na rua. ora bem. o.s. queria dizer “os sombras”. não sei se é a primeira vez que estou a revelar o segredo. se é está revelado.
tínhamos um alfabeto próprio. o a equivalia a um sinal. não me lembro qual. e assim por adiante. escondíamos tudo na frincha. aberta do muro. pequeno. para que isso servia. é uma pergunta séria. como é sempre sério quando uma criança. com outras brinca. nós brincávamos através do muro. pequeno. tinha frinchas. pá guardávamos os segredos. com linguagem própria. e ninguém sabia. nem os do bairro. só nós. e isso era uma grande e sofisticada forma de ser.

 

joaquim armindo
22/4/2026

 

(6) A GRALHA E A PAPAIA (baseado num episódio real)

 

Em África os bichos entendem-se. Por vezes, as crianças também entendem os bichos. Eu era criança, mas não entendi a conversa entre a gralha e o meu pastor alemão Thor...
O Thor era uma fera implacável, terror dos gatos da vizinhança; por outro lado, nunca fez menção de atacar bicho que voasse.
Naquela manhã, o Thor conversava com uma gralha empoleirada no corrimão da varanda; ou melhor, o Thor escutava com atenção, pois a gralha, fazendo jus ao nome, não se calava – não se calava, e só depois compreendi o que andavam os dois a tramar!
“Tu sabes que eu adoro papaias! E aquela ali está tão madurinha... Que hei-de fazer?”
É verdade, nós tínhamos uma papaieira no jardim, encostada ao muro onde o mainato da casa ao lado poisava o ferro a carvão; e também é verdade, que tal como a gralha, o meu pai adorava papaias, e aquela, mais especificamente, estava-lhe na mira, assim como lhe estaria na mira da pistola a gralha que rondava a papaieira.
Eu, o meu irmão e o mainato da casa ao lado, íamos enxotando a gralha enquanto aquela específica papaia, grande como uma abóbora, corada como um sol, ia amadurecendo.
Quando chegou o grande dia de colher a papaia-abóbora-sol, o meu pai foi buscar a escada de madeira que guardávamos na arrecadação; mas assim que encostou a escada à árvore, a grande papaia soltou-se, e com um grande (PLOF!) esparramou-se no chão, revelando, na “face oculta”, um buraco redondo, largo e profundo, enquanto acima do telhado da arrecadação, a gralha se afastava rapidamente. Pareceu-me ver o Thor piscar um olho enquanto abanava a cauda, bastante divertido com a nossa perplexidade.

Ana Ferreira da Silva

 

(5) parecia quase um quadrado


passar um dia lá dentro vá que não vá. agora uma semana. após semana. mês após mês. ano após ano. só quem nunca esteve na guerra. é que a defende. o quartel era mesmo um quadrado. parecia. mas creio que era mesmo. sabem o que ver uma luz parecia com um foguete. não sabe quem lá não esteve. ou uma luz provinda de um fogo de artificio. era do in. isto é. do inimigo. mas eu não tinha inimigos. então ao anoitecer. corremos todos de armas em punho para defender o quadrado. o quartel. quero dizer. mas o in tinha outros planos. aquilo era um sinal. para atacarem uma escolta militar no outro dia. onde morreram jovens. militares à força.
mas notem. sabem o que é viver num quartel. cercado. a diante havia povo. mas nas palhotas. casas frequentadas por alguns de nós. onde. certamente. haveria ins. tantos que vinham para nos lavar a roupa. e também. diga se. para levarem o que sobrava da nossa comida. e em latas. mais à frente uma proibição total de darmos os restos. mas sabem porquê. era para alimentarem os guerrilheiros. sim os ins. assim ninguém comeria.
mas sabem o que é a guerra. em nome de princípios. mas nós não sabíamos porquê. a guerra. um quadrado. um quartel. uma hora. outra hora. um dia. outro dia. outro dia. um mês. outro mês. um ano. mais um ano. um tiro. outro tiro. mas porquê. em nome do meu país. não era. em nome de outros interesses. de quem não queria ir à guerra.

 

joaquim armindo
22 de abril de 2026

 

(4) uvas do senhor alcino

o senhor alcino tinha uma quinta bem grande. penso que só lá entrei uma ou duas vezes. pelo portão. que até era uma das nossas balizas. do campo de futebol. claro. mas o senhor alcino tinha outras coisas. uma delas era um aparelho de vento. metálico. sugava as águas que lá passavam. antes de continuar. para que saibam eu não conhecia. nem nunca cheguei a conhecer o senhor alcino. não sei bem se o nome era um aparelho. era mesmo muito grande. tinha umas pás. giravam com o vento. e daí tiravam água. das profundezas da terra. tinha um depósito a meio. que conservava a água. e daí regava toda a quinta.

mas a quinta do senhor alcino tinha outra coisa que mais interessava. era uma videira. e dava uvas. ora bem. eram as uvas que mais nos interessava. não porque faltassem uvas às nossas mesas. mas era o prazer de assaltar a quinta. do senhor alcino. assim íamos por o muro da rua afonso albuquerque. era mais fácil. aí o muro era mais baixo. tinha um gradeamento a defendê-lo. de nós claro.
vai daí sacávamos os cachos de uvas. as criadas do senhor alcino ficavam incomodadas. ou mostravam isso. e não ficavam. o senhor alcino não sei. nem nunca soube. os cachos de uvas que bem sabiam. eram as uvas da quinta do senhor alcino. se fosse hoje não o podíamos fazer. já não existe a quinta do senhor alcino. em seu lugar um prédio de muitos andares.

 

joaquim armindo
22 de abril de 2026

 

(3) NO TEMPO DA PANDEMIA

 

No tempo da pandemia, quando o mundo parecia suspenso, uma poesia saltou para o papel. Chamava-se “A fome” e alertava para as desigualdades sociais — feridas expostas por uma crise que atingia todos, mas não por igual.
A poesia ganhou o primeiro prémio. Como gesto simbólico, a autora foi convidada a plantar uma árvore de fruto e, junto às suas raízes, colocou uma cópia do poema — como se as palavras pudessem alimentar a terra.
O tempo passou.
A pequena laranjeira cresceu num jardim onde não era fácil ser vista. À sua volta, árvores altas e imponentes, mas sem fruto, roubavam-lhe a luz e escondiam-na do olhar de quem passava. Sentia-se só, quase esquecida.
Até que um dia o jardim foi limpo. Livre da sombra, a laranjeira ergueu-se com orgulho e decidiu mostrar ao mundo aquilo de que era capaz. Nesse ano, deu laranjas grandes, perfeitas — laranjas de umbigo, cheias de vida.
Não estiveram debaixo do envelope da Páscoa, como manda a tradição da autora — afinal, são a única fruta do inverno, símbolo da união e harmonia familiar, como os gomos que se juntam num só fruto. Nesse lugar esteve outra.
Mas a laranjeira não ficou esquecida.
Ficou uma fotografia e ela toda arrebitada no jardim. É a única no meio das japoneiras. A camélia é a flor do Porto e a autora é tripeira. Com ela, ficou também a memória de que aquilo que nasce de palavras pode, um dia, dar fruto.

 Maria Teresa Portal Oliveira

(2) trabalhar e pagar ainda

 

traziam o fruto do seu trabalho anual. trabalho duro. era braçal. levavam à cabeça. ou em carritos muito pequeninos. puxados pelos seus braços. esguios. pobres. satisfeitos pela sua contribuição. era o algodão. o produto do seu trabalho anual. mas lá iam. com os seus filhos. e filhas. que eram muitos. na minha aritmética. claro. chegados. tinham à sua espera um inusitado cenário. o mercado era um depósito de armas. soldados e seus oficiais. de arma em punho. era a gê três. eu era um deles.
numa balança eram pesadas as quantidades. de algodão. o algodão que era uma vida. de um ano. as crianças alegres. pudera iam sair de casa. dar um passeio. levar o algodão. este tinha sido o seu trabalho. também. o seu vozerio confundia-se. com o dos trabalhadores dos senhores. do algodão. tantos kilos. foram colhidos. nunca soube se as balanças pesavam as quantidades certas. para os senhores. do algodão. sim. para aqueles que trabalharam o ano inteiro. não.
pesadas as quantidades eram declarados. tantos kilos. monta a tantos escudos. menos o débito de quem produzia. eram tantos escudos. como os senhores do algodão. eram beneméritos. reduziam a esta carga. os débitos da produção. sendo assim. ficariam a dever. tantos escudos. mas pagava-se. tantos escudos. com os débitos a subir. mas a levarem em mão. alguns escudos. para o ano seguinte aumentavam as dívidas. assim se faziam as contas. sob as armas. gê três. 
joaquim armindo
22 de abril de 2026

 

(1) conversão é deixar duas mulheres

 

um dia destes pergunta um missionário. se um natural de um país africano se der a jesus. tiver três mulheres que faremos. dizemos-lhe que tem de deixar duas. ficar só com uma. ou continuar com as três. é que na fé cristã só pode ter uma mulher. mas ele deu-se completamente a jesus. só tem esta dificuldade. e o missionário pensava. ele não quer. não pode. render-se a jesus. de acordo com a nossa doutrina. tendo três mulheres. então o missionário pensava. pensava no que diria ao senhor.
se o missionário lhe dissesse que tinha de renunciar a duas. o senhor cumpria a doutrina. se lhe dissesse que poderia ficar com as três. não cumpria a doutrina. por outro lado. se dissesse para deixar duas. então elas iriam para a miséria. se dissesse que poderiam ser as três. não cumpriria a doutrina. e qual iria escolher para ficar com ele. uma pergunta. não uma resposta. não existiam dúvidas. o senhor era cristão. não cumpria. porém. uma condição. ter três mulheres.
se ficasse com as três. cumpria os ritos da sua tribo. da sua consciência. se ficasse só com uma trairia a sua tribo. mais trairia a sua cultura. então para se converter a jesus tinha de lançar na miséria duas pessoas. e certamente as três. porque os seus não lho perdoariam. que fazer. eis a pergunta. uma pergunta. sem resposta.

 joaquim armindo
22 de abril de 2026

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Livro infantojuvenil em pré-lançamento: "O Menino cor de Aleixo", de João Couto Ribeiro

No Dia Mundial do Livro apresentamos...


“O menino Aleixo foi finalmente aceite por todos. Como tantas outras crianças pelo mundo, ele fora rejeitado por ser diferente. E após uma longa jornada de dificuldades e retrocessos, acabou por descobrir sozinho que a diferença não é um defeito, aceitando-se a si próprio como único! E, sem sequer se aperceber disso, havia usado o “tal” poder que a Fada Madrinha descrevia, concluindo que a força que devia usar não era exterior, mas antes interior.”



O Menino cor de Aleixo; João Couto Ribeiro
60 páginas, capa mole; Tecto de Nuvens, 2026 PVP:7,50€

Ilustração de Mariana Ribeiro


Aleixo é um menino como tantos outros. É sonhador e brincalhão, gosta da escola, de estar com os pais e de ter amigos. Só que os outros meninos não querem a sua amizade... Ele tenta descobrir porquê, mas não consegue resolver o seu problema. Até que a visita de uma Fada Madrinha muda tudo. (…). Será que o pequeno Aleixo consegue voltar atrás? Ou acabará por ser aceite como é?

Número 9 da colecção “Petizes Felizes!”


Festejamos o Dia do Livro...

Da forma que mais gostamos: com um novo livro!

Volta a colecção “Petizes Felizes!”

Assim, até às 23h59 do dia 22 de Abril 2026 pode adquirir este livro com 25% de desconto e ainda 50% de desconto noutros títulos desta colecção.*


Veja o catálogo aqui.


*Sujeito ao stock de cada um dos títulos.


Ao valor da encomenda acrescem os portes.
Faça a sua encomenda para o email: loja@tecto-de-nuvens.pt

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Dia Mundial do livro_ Desafios de autores para autores: Abril

 

Cartaz oficial da DGLAB, de autoria de Carolina Celas (menção especial no Prémio Nacional de Ilustração, 2024).


Dia Mundial do Livro

O desafio para este mês é livre, um pequeno texto, com menos de 20 linhas (podem usar uma folha A5 como referência) sobre o que quiserem, seja um livro que vos tenha marcado, um pequeno conto de vossa autoria, um pensamento (que pode vir acompanhado de uma foto* tirada por vós); o início de um livro que planeiam escrever (ou já escreveram, mas ainda não publicaram)...
Neste dia, em prosa, celebraremos a palavra escrita como forma de comunicação, de expressão de sentimentos, de companhia, de forma de viajar (pela memória, por exemplo), etc.
Como habitualmente, por ser Abril, se alguém se sentir particularmente inclinado a escrever sobre o 25 de Abril e/ou a liberdade (ou liberdades), também o pode fazer.

*Pode ser uma ilustração vossa.

Envie os seus trabalhos até ao final do dia 24/04/206 para geral@tecto-de-nuvens.pt ou tectodenuvens@hotmail.com