Também
eu não estava a entreter-me. Não! As minhas costas, os meus joelhos e os meus braços
sabem isso muito bem. É um sacrifício gostoso. Para um bem maior. Para que este pedacinho do mundo fique
mais belo, mais harmonioso, mais habitável, mais bem cheiroso. Para que alguém
se possa sentir repousado interiormente, descansar o olhar e a alma nesta
natureza cuidada que pode acalmar ansiedades e turbulências, fazer com que
alguém se reencontre consigo
próprio, na paz, na tranquilidade. Para que as cores de cada flor, a verdura
exuberante das plantas, as abelhinhas e as borboletas que passam, façam brotar
alegria, esperança, serenidade e um pouco de optimismo. Para que alguém se
possa sentar ali e sentir o murmúrio do vento ou a carícia de uma suave brisa.
Para que um raio de sol lhe ilumine o ser e a vida.
Gostaria que, ao menos por uns
instantes, alguém se sentisse convidado a parar neste jardim. Pode ser para ler
uma página de um livro, mas pode ser também para não fazer nada. Pode ser para
seguir o voo de uma borboleta ziguezagueando no ar, observar uma abelha metida
dentro de uma flor, ou observar o carreirinho das formigas, assim como a
superfície do túnel escavado pela toupeira. Com sorte, pode ainda acompanhar o
percurso de um dos muitos caracóis que andam por ali pois, geralmente, eles
estão parados.
Num pequeno jardim sossegado como
este, quanta paz se pode sentir! A mesma paz que nos invade ao entrar num
templo silencioso. É só saber aproveitar.
Num jardim cuidado com dedicação
para os outros, podemos ouvir as flores a conversar. Elas têm tanto para nos
ensinar. Eu consigo escutá-las. É por isso que trabalho devagar. Hoje, com o
meu rádio avariado, consegui dar-lhes mais atenção. Elas fazem-me pensar.
Fazem-me desejar ver jardins por toda a parte. Jardins com meninos a brincar e
pais e mães a passear. Jardins que só florescem em lugares de paz. Jardins com
flores que espargem seus aromas apenas onde só a vida desabrocha e se expande.
Jardins em vez de cinzas e escombros.
Não há jardins onde há guerra;
não há flores onde a paz só se faz depois que uns matam os outros. Não se sente
o perfume das flores onde o cheiro de morte se sobrepõe. Os passarinhos não
cantam e as crianças não sorriem onde a paz é espezinhada.
A paz não pode ser simplesmente
“ausência de guerra” ou “tranquilidade na ordem”. Ela é muito mais do que isso.
E é possível. Basta que uns tantos a queiram. Mas tu e eu também temos que a
querer. Construí-la em cada dia. Cuidar dela. Não perder tempo com coisas vãs.
Alguém nos disse um dia:
“deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz”. Não é uma paz qualquer. A paz que os
homens dizem querer e nada mais fazem do que guerrear, não se aguenta. A paz
assente no amor que Cristo veio ensinar e testemunhar, essa é duradoira.
Quando virá ela? Quem dera viesse
hoje mesmo! Eu sonho com ela.

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