E numa votação que andou renhida até ao fim, subitamente, em grande sprint chegou um texto que ultrapassou todos e ganhou vantagem nos últimos metros. Assim foi a vitória do conto "O Tacho". Muitos parabéns à autora, Maria Lucília Teixeira Mendes.
Era uma vez uma menina que nasceu e cresceu num tempo em que o
tempo era tempo. Ele não corria. Andava devagar e chegava para tudo. A vida
rolava ao ritmo das fases da lua, das estações do ano, das sementeiras e
colheitas, e até do nascimento dos cabritinhos... Os adultos conseguiam parar a conversar e as
crianças nunca tinham pressa. Tudo se fazia com calma e, calmamente, lá iam
chegando, sucessivamente, o natal, o entrudo e a páscoa. A seu tempo, chegavam
também dois amiguinhos de Lisboa para as férias grandes e que eram grandes de
verdade! Um pouco mais velhos, eram eles o Zé Tó e o Tó Zé.
Esta menina veio ao mundo numa aldeia pequenina encimada por
verdes pinheirais e em que as nascentes de águas límpidas brotavam por toda a
parte. Sempre em grupo, a criançada saboreava cada brincadeira, inventada com a
sabedoria da imensa liberdade criativa de que gozava. Sempre ao ar livre.
Um pau engatado numa roda de madeira mal cortada e que, por
isso, mal conseguia rodar, era uma mota. Um arco ferrugento, arrancado a uma
pequena pipa velha, era um carro de alta cilindrada. O cabo de uma vassoura,
gasta até ao fim, passava a ser um cavalo adestrado para as mais altas
competições e viagens ao infinito.
A esta menina, foi dado o nome de Graça. E ela era mesmo uma
gracinha! Uns diziam que era a cara da tia Primavera; outros, que tinha as
pernas da avó Patucina. Havia ainda quem a achasse parecida com… sei lá!... com
a meiga Genoveva, tia-avó do pai que tinha uma verruga peluda na ponta do
nariz, mas já ninguém reparava em tal acessório!
De rosto redondinho, a menina apresentava um doce sorriso fácil.
Os cabelos loiros e ondulados, contrastavam com os vivos olhos negros. Falar,
quer dizer, articular certas palavras, é que era ainda uma pouco difícil.
Um dia, a menina, que muitas vezes fugia da casa da mãe para a
da avó, foi com esta para o lugar onde confluíam algumas nascentes. Havia aí uma poça larga com lavadouro de
pedra. A poça era abastecida pela água corrente que descia por um apertado rego
ladeado de altos muros, em jeito de levada. Nestes muros de encosto, de pedras
húmidas, musguentas e viscosas, cresciam saborosos moranguinhos vermelhos,
muito pequeninos.
Enquanto a avó lavava, a menina caminhou rego acima. Pondo os
pés ora numa, ora noutra pedra escorregadia, colhia os saborosos frutos,
comendo-os de seguida. Todo o cuidado era pouco para não escorregar e não
molhar os sapatinhos azuis que lhe dera o padrinho no dia em que completou três
anos, uns seis meses atrás. Mas, apesar do cuidado, ela acabou por cair.
Sentiu-se, então, sentada na água, sobre uma coisa um pouco dura e que não
sabia identificar. Um calhau não era, de certeza.
Ali, a água, retida por algumas pedras mais altas, fazia um
pequeno charco lamacento.
Teve vontade de chorar e gritar pela avó. Estava para abrir a
boca, quando lhe pareceu que uma vozinha fina como orvalho, vinda do fundo do
charquito, lhe estava a fazer “shiuuuu…”
Pronta como era, embora meio incrédula, perguntou imediatamente:
- Quem és? És um peixe?
Ninguém respondeu.
- És um cagarralo? (Era assim que chamavam os girinos das rãs)
O silêncio voltou a ser a resposta.
- Não falas? – acrescentou decidida. - Vou-me embora e vou contar à minha avó. Ela vem cá e vai-te descobrir. (...)
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