sábado, 16 de maio de 2020

Desafio de autores para autores - PROSA

Estão encerradas as votações e contados os votos. Os nossos parabéns ao autor Manuel José Martins e o nosso obrigado a todos os (muitos) que por aqui passaram a  ler os poemas e ainda mais aos que participaram na votação.

Continuem a visitar-nos, continuaremos a publicar bons textos para boas leituras e a divulgar bons livros, bem como a ocasional vaidosicezinha!



Em resposta ao desafio lançado, que consistia num texto em prosa que relatasse um episódio verídico, chegaram-nos estes textos.
Cabe agora aos leitores lerem e divulgarem esta iniciativa. Têm ainda a oportunidade de expressarem a vossa opinião votando no vosso texto favorito (veja as instruções no final deste post); o autor do texto mais votado receberá um caderno com capa igual à do livro: "Uma manhã na praia - Colectânea de Férias - ".
Boas leituras!




a quininha


ela ali está. a pessoa dita idosa.não sabemos muito bem o que é isso de “pessoa idosa”. deve ser quem possui em tese estatística o ser  mais jovem para morrer. mas encontrei-a, ao meio da rua elias garcia, nesta vila nova de gaia. deverá ter cerca de noventa e cinco anos de idade, ainda do tempo da segunda guerra mundial. e neste tempo da terceira guerra mundial. que atravessamos. sob todos os pontos de vista. a quininha já passou muito. as agruras da vida medem-se na sua cara. jovem e enlameada. jovem porque ainda tem fé no futuro. também nunca foi pessoa que necessitasse de muito para se considerar feliz. nem telefone. quanto mais telemóvel. na televisão ainda vai vendo metade das coisas. porque a outra metade nem sabe o que é. e então com estas “modernices” que para aí estão andando. “ó meu filho”. podia ser filho dela. lá isso podia. mas agora que me chame de menino. mas está bem. sou menino. olhem até fiquei contente. porque aqueles que não forem como crianças como entrarão numa nova vida. numa nova ética mundial. a quininha não sabe o que isso é. ética. mas bem sabe na sua vida o sentir-se ética. o mais que tem é o exame da terceira classe. mas aí não como agora. ela sabia as serras. os rios. e até os apeadeiros do caminho de ferro. porque isso “menino” é que era. metia-nos no comboio e estávamos no porto. bem que se pode contar as vezes que foi ao porto. uma dúzia. talvez duas. que a lisboa nunca foi. mas onde gostaria de ir era a braga. tão longe “não é menino”. interroga.  meti a mão no bolso e balbuciei cá para mim braga é a vinte e cinco quilómetros. daqui. pois nunca lá foi.
é do tempo em que ir à escola. sabe éramos sete irmãos. e era tão preciso cultivar o campo para comer. malandreca esperava pela noite pelo “seu homem” porque não havia televisão e o rádio era para quem o tinha. só tínhamos a cama. por isso a população cresceu. olhe o meu bisneto. que lindo menino. mas traz para aí umas coisas. toda a tarde virado para a televisão. e não é que ele com cinco anitos já consegue conduzir um automóvel. nós também. sabe. mas eram os carros de bois. que linda vida. o carbono não era tanto e não haviam autoestradas. sabe menino. há para aí umas poucas-vergonhas. homens com homens. mulheres com mulheres. ai, naquele tempo. lembro-me bem. namorar só á janela. não é que os campos de milho não houvessem por aí. e sabe menino os homens têm as suas necessidades. íamos apanhar couves e lá estava ele para nos apanhar a nós. mas também sabe. era bom. sabia bem e cá para nós até os padres o faziam. agora não. não é assim. deitam-se nesses óteis.  é móteis. e lá fazem a sua vida.
sabe menino. não sei para que está a falar comigo. mas já me explicou. tirei a terceira classe e o meu paizinho não tinha o que nos dar de calçar. o que valia era aquilo que lá os estrangeiros mandavam para cá. manteiguinha. queijinho amarelo. e leitinho em pó. valha-nos nos deus por isso. mas era bonito até nos davam sopa na escola. era o que nos valia. salpicávamos a chuva com os nossos pés. ai meu deus. atirávamos água umas às outras. que divertimento. a escola só de raparigas. porque tinha de ser assim. na escola das raparigas. mas aprendia-se. que bem. olhe as serras de portugal são. e lá as disse todas. penso que estão todas. que não as sei como ela sabe. ai meu deus. e a tabuada era a cantar. já tenho ensinado aos meus bisnetos que agora não sabem. que boas reguadas eu levei. mas aprendi. ora se aprendi. ainda agora pelos fiéis coloco uma flor na campa das minhas professoras. a agradecer as boas reguadas que levei. agora não é assim. ainda noutro dia uma senhora da segurança formada pela universidade veio cá. e não é que quando eu lhe disse “bata-lhe-se-ele-foge-à- escola”. me disse. sabe menino. que agora não se podia. trautalizava [traumatizava] o menino. eu pensei. pensei. enquanto rezava a nossa senhora o que será isso de tratatizar. bem ela vem da universidade deve ser uma coisa muito importante. olhe noutro dia o meu filho do meio levou-me de carro ao porto. ai que quis vir logo para o meu ninho. tanta gente. e olhe são umas depravadas andam com as pernas ao léu. no meu tempo também as fazia. mas as perninhas estavam bem escondidas. e no meio do pinhal ninguém via. mas também o meu homem precisava.
aqui existiam umas casinhas todas alugadas. éramos uma família. a emilinha. a claudininha. a mena. agora já não me lembra de todas. e os seus homens. o sr. gaspar. o sr. joaquim. era muito bom ao domingo. à missinha não faltava e só tomava o senhor. porque no sábado o sr. abade me confessava. não lhe contava tudo. mas ele percebia. porque a sobrinha que lhe tratava das coisas ria-se muito. olhe ainda antes da missinha íamos regar os campos e sempre se levava uma galinhinha. para o sr. abade., coitado. mas galinha de milho. não com essas coisas que agora colocam às galinhas e uma duzinha de ovos para a sr.ª professora. porque. ai menino. aturava-nos tanto.
agora olhe. estou aqui nesta cadeira. nem posso “chaxar”. deito-me e sabe. antes disso. vejo as malandrices na telenovela. até me rio. mas ninguém vê. noutro dia. ai quando foi. dia dos fiéis. disse eu. sim foi. fui à campa da minha mãe e da minha irmã. comprei umas floritas e não é que me pediram dez euros. não sei quanto é. mas deve ser caro. se não fosse o meu mais velho olhe não comprava. mas é para eu aprender. podia muito bem ter plantado.
isto aqui eram outros ares. bons ovinhos todos os dias.
olhe menino. matávamos uma galinhinha pela páscoa. porque no natal o sr. firmino.o dono da mercearia era tão bom. comprávamos o bacalhau e ele apontava no livro. ainda nos dava uma garrafinha de vinho fino. depois jogávamos aos pinhões. rapa-tira-põe-deixa. os nossos domingos à tarde enquanto os homens ouviam o relato de futebol. sempre são homens. nós jogávamos à macaca. sabe o que é menino. ai sabe.
quando estávamos doentes vinha cá o sr. dr. o filho da dona carmindinha. era uma jóia. tínhamos de pagar. para aí cinquenta escudos. agora, vamos logo para o hospital. e depois cansa-me. sabe. estar à espera tantas horas. e nuns minutitos o sr. dr. que cá vinha. já lhe disse o filho da dona carmindinha, que até andou a estudar em lisboa. dr. couto santos. num instantinho nos tirava a febre. agora tanta gente nos hospitais. ai valha-me nossa senhora. vai muito mal no mundo. sabe, tudo isto era uma família. mas agora olhe vivem ali uns senhores que nem os conheço. ele é bonito. lá isso é. e bem vestido. elegante, mas não sei quem são.
mas já quer ir embora. perguntou. bem para outro dia conto mais um bocadito da vida. quando quiser. estou por aqui. um dos meus filhos ainda queria que fosse à suíça. ele está lá muito bem. mas eu não vou. esperar por si está bem. boa tarde e deus o acompanhe.

Joaquim Armindo 


* Ortografia e pontuação de acordo com as indicações artísticas do autor.




PINGUELA

Lembro-me dela assim: dois trilhos de caminho-de-ferro assentes sobre grandes pedras de granito, fixados às paredes, atravessavam sobre as águas do rio Este e ligavam as duas margens. Sobre os trilhos, na horizontal, tábuas grossas de madeira, firmes e unidas, facilitavam a passagem de pessoas, animais, bicicletas, carros manuais e utensílios que a gente utilizava nas suas lides. Quem pretendia passar de um lugar para o outro da freguesia, ali encontrava a pinguela pronta a suportar com sólida paciência o peso que a pressa tem ao encurtar caminho. Encurtar e serenar. A ponte romana, a sul, é uma alternativa distante e, sobretudo durante a noite, luz elétrica inexistente, esta opção obrigava a percorrer cerca de um quilómetro de caminho e estrada, a andar por entre descampado e bouça.
Até ao seu fim sempre a conheci pela denominação de pinguela. Hoje, dicionário aberto, internet consultada, leio e vejo que pinguela é uma viga, ou uma prancha, ou uns troncos improvisados, ou uma mistura de tudo isto, atravessada sobre um rio a servir de ponte, sem proteção lateral. Assim o terá sido antes de a ver. Quando a conheci tinha proteção lateral. A ladear a pinguela, a cerca de um metro e trinta de altura medido a partir das tábuas, duas arriostas presas a quatro ferros cravados e sustidos no granito das paredes, enticavam-se de uma à outra margem e serviam de corrimão. Entre a pinguela e as arriostas, três cordas compostas por arames entrançados sustinham as quedas dos mais desprevenidos. A completar a proteção lateral, uns quantos ferros dispostos ao alto, fixados nas tábuas, com furos por onde passavam as arriostas e as cordas que aos ferros estavam presas, ofereciam maior consistência a uma proteção inimaginável para os servidos civilizados ocidentais que desconhecem passado recente.
Os rapazes, naquela escola apenas os rapazes, frequentavam o ensino primário, então o único obrigatório.
O Cinema Paraíso poisou-me na ideia. Xô!
Era uma escola com uma régua em funcionalidade aparentemente corretiva; incomodava, transmitia receio, mas nem por sombras imperava. Ensino, recreio, ensino; aprendizagem, diversão, aprendizagem; educação, entretimento, educação. Termina a lição. Risos, algazarra; toca a recolher a loisa, os cadernos e o livro, o lápis e a esferográfica, a borracha e o lápis de lousa que merece maior cuidado senão quebra e quebra sempre. Bolsa recargada. Correria porta fora. Animação, conversa, gritos. Desce-se o recinto do recreio. Encontrões que o portão é estreito. Caminho. O regresso a casa e a simulação do regresso.
Uns juntam-se a descer, outros juntos caminham a subir. Chão de macadame. A esguelha.
Pequenas pedras começam a ser apanhadas, seguras nas mãos, recolhidas nas camisolas, bolsos e bolsas. A distância que permeia entre o grupo que regressa e o que finge regressar está quase. Os mais impacientes animam a antecipação. Alguns apartam-se. Ligeira hesitação.
Inevitável. A primeira pedra atravessa o ar, as outras seguem-na. Os que regressam a casa aguentam firme a primeira leva. Os mais afoitos avançam e fazem recuar os fingidores. Mas, quem regressa a casa, a casa torna por caminho sem espera. Os que subiam atiram pedras, correm a descer. Os que desciam continuam a descer agora a correr.
Os que regressam, antes de passarem sobre a pinguela resistem com nova salva de pedras.
Pequeno entreato. Quem vai a caminho de casa sabe que a pinguela está disposta a carregar novos saberes. Abandonam a contenda. Vão.
O vime sopra e faz-se ouvir. Sobre a pinguela, aos saltos, os perseguidores recusam penetrar em solo hostil. Pincham forte sobre as tábuas enquanto umas pedritas caem no rio ou acertam na cabeça de algum. Cabeça rija que pedra enfrenta sem temer. A pinguela balanceia e os trilhos rangem. O comprido e delgado vime aproxima-se furioso e veloz.
Ordem para voltar. Corre-se campo fora, uns mais rápidos que outros. O vime é persistente e astuto. Corta a direito, cerca, conhece melhor o terreno. Algumas costas são aquecidas, nalgumas coxas um risco avermelhado surge, uma ou outra orelha encarna. A criança tem mais pernas que o adulto. Perna mole foge desta diversão.
Todos tornam a casa e o melhor é estar em casa sem lá ficar. Dia seguinte de manhã todos juntos na escola. A aprendizagem a crescer, a amadurecer.
Nos rapazes, a solidariedade, o silêncio. Talvez a professora soubesse.
O desleal homem do vime. Duas ou três escorraças e toda a freguesia fica a saber o que se passa quando os cachopos regressam a casa após o final da lição. Ralhos, repreensões.
Acabou.
O homem do vime fazia parte.


Manuel José Martins





Votações: Até dia 31 de Maio de 2020 pode votar no seu texto favorito. O número de votações por pessoa é ilimitado.
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7 comentários:

  1. Toca a sirene. Esquecem-se os que nunca se lembram mais esquecem aqueles que nada têm para lembrar. A saudade é a recordação de um pedaço que em nós permanece.
    Recordar entretimento é continuar entretido. Recordar vida é continuar a viver.
    Manuel José

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  2. O meu voto vai para "Pinguela". Meu Deus, já há tantos anos que não ouvia essa palavra...

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