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domingo, 8 de março de 2026

Desafios de autores para autores: Março - Dia da Poesia

Os desafios de Poesia têm, desde já, a recepção aberta com o prazo a terminar ao final do dia 20, sexta-feira. Estarão online no dia 21 de Março, data em que as votações abrirão (serão encerradas a 15 de Abril, 2026).

O tema é livre, mas quem quisesse poderia assinalar o Dia da Mulher.
Os textos não têm prémio especial, serão avaliados juntamente com os outros, mas, por graça, levam esta imagem e ficam, desde já, disponíveis.


Lembramos que do dia 21 de Março e até ao dia 15 de Abril teremos uma votação a decorrer para encontrar o poema favorito dos leitores.
Como habitualmente, as votações serão feitas usando a caixa de comentários (já sabem que tem moderação pelo que os comentários/votos não ficam visíveis de imediato), não há limite para o número de vezes que podem votar ou em quem votar, apenas se espera algum bom senso (e apesar de aceitarmos que no blogue as votações ficam anónimas, só validaremos os votos após recebermos por email a identificação do votante e forma de contacto, assim que lhe atribuirmos um número).
O autor do texto mais votado escolherá do nosso catálogo de Poesia exemplar do livro que mais lhe agradar; e o mesmo sucederá com o comentário/voto sorteado de entre os votantes identificados.



(14) Águas serenas*


Águas serenas, vai o rio a fluir
Entre as árvores nuas, há um sussurro de ar
Uma ponte liga sonhos distantes
Sob céus de nuvens brancas e errantes

Folhas novas brotam, verde esperança,

No horizonte, a natureza faz a sua dança
O silêncio do rio não reflete o mundo
Um convite ao devaneio profundo

Nessa paisagem, quase que a preto e branco se encontra
Um collage de alma, poesia sem outra

Ilda Pinto Almeida
*(Tão serenas que o email com a participação se perdeu...)


 (13) nas trincheiras da esperança

abraçados às marés,
libertos nas areias dos mares,
estamos nas trincheiras da esperança,
                            olhar noturno de quem
                            quer lua, mas com a terra, 
se não tivermos a terra,
para que queremos a lua.

vampiros avançam pelos campos
                            e o trigo não floresce,
                            nem o milho reluz,
porque as espigas são correntes de água,
                            que desaguam nos ribeiros.

a esperança dourada, são violas de arco-íris,
semeando a vontade,
forjando as harpas de canções de poesia.

joaquim armindo
21/3/2026

(12) Adeus Salva Almas

José de Almeida, o Salva Almas (esquerda)


Adorava estar a viver nas calmas
Fazer coisas simples como caminhar à beira-mar
Ouvir um músico de rua e bater-lhe palmas
Parar numa esplanada e beber até me saciar.
Ao invés vivo numa correria e cheio de perigos
Com um ruído de fundo que só me causa traumas
Deito-me sem ter tempo para visitar os meus amigos
Acordo e dizem-me que morreu o Salva Almas.
Cai-me uma lágrima porque dele não me despedi
E sentindo um aperto enorme no coração
Sinto-me triste e pesaroso pelo que não vivi
Tudo porque ainda não aprendi a dizer que não. 

Aníbal Seraphim

 

(11) O cantar do Emigrante

 

Vem, menina, ouvir o nosso cante,
Por sobre a seara a ondular;
E eu cá em terra distante,
Ao meu Alentejo quisera voltar.

 

Chora o meu coração, menina,

Da lonjura amargurado,

De não mais teus olhos ver, trigueirinha,

De te não ter a meu lado.

 

Mais feliz é o pardalito, ceifeira,
Que à tua mão busca o sustento,
Que o teu amor em terra estrangeira
Buscando o nosso cante no vento.

 

Abala, ó vento, pelas serranias,

Vê não te atardes no mar;

Leva-lhe em lindas melodias

As lágrimas do meu cantar.

 

Traz-me o cheiro das suas tranças

De trigo e feno entrançadas,
P’ra me eu lembrar cá por estas Franças
Das nossas ternas madrugadas.

 

Ó minha aldeia caiada,

Com todo o estio por diante,

Não queiras ser como a cidade,

Onde nem o melro sabe o cante.

 

Hei-de voltar à minha terra,
Não se me canse a alma de viver;
Que a trigueirinha à minha espera
Ao Alentejo me vai prender. 

Ana Ferreira da Silva

 

(10) é preciso dizer não

 

por entre as espingardas infames,
que matam dia a dia,
os homens e mulheres da paz,

é preciso dizer não.

 

por entre os aviões,
lançando bombas sobre o sol,
e levantam a húmida tempestade,

é preciso dizer não.     

 

perante o esmagar dos lírios,
e os drones da mesquinhez do dinheiro,
sugando o húmus à terra,

é preciso dizer não.

 

perante os neurónios esmagados,
dos senhores que fazem a guerra,
em nome duma paz, jogando ténis,

é preciso dizer não.

 

perante aqueles que sonegam a verdade,
e da mentira fazem azes,
sabendo que os passaritos não cantarão assim,

é preciso dizer não.

 

perante os domadores das ciências,

e da história se esquecem,
como se tivessem os arquétipos da vida,

é preciso dizer não.

 

é preciso dizer não, com letras visíveis,
de quem não se vende,
nem se atraiçoa,
o vento sopra sempre, como queremos.

 

joaquim armindo
21/3/2026

 

(9) poema no dia da poesia

 

o poema não é surdo,
mas se o fosse,
derramaria sobre os nossos braços
a sua propositura,
os lamaçais sucumbiriam,
aos raios,
dos relâmpagos presos por fitas,
(sim por fitas),
e deles sairiam estrelas,
perfumando o odor das pétalas,
ai, ai, primavera, quem te dera ser poema,
o inverno jamais veria a sua perturbação.

 

joaquim armindo
21/3/2026

(8) TROVA de te buscar

Busquei-te pelos campos em flor,
Despontava a Primavera;
Anelando por teu amor,
Por longes caminhos viera.

 

Rubra papoila colhi
Das ondas de oiro da seara,
Por assim ofertar a ti
Sangue que o coração chorara.

 

Das fontes de Maio eu provei
Livres, pelas fragas cantando;
Por mui rudes trilhos penei,
Sol e as estrelas me guiando.

 

Pés feri em dez mil agruras,
Ficou-se-me a fímbria nas giestas
Do vestido, e nas alturas,
Sinos perdi pelas florestas.

 

Rachando vai meu bordão,
A alma rende de tantas luas;
Resta agora o coração
Se me vierem feras cruas.

 

E eis que avistando vou
Ameias perdidas na bruma;
Sei que me esperas, pois sou
De ti amada, que outra nenhuma.

 

E é por ti que a trova canto,
Deste anelo de te amar,
Cativos de suave encanto
No jardim de Aziza ao luar.


Ana Ferreira da Silva
25 de Dezembro de 2024

 

(7) A Despedida 

Perguntas-me quanto te quero eu...
- E por que partes, se tanto te quero?
Que responder, amigo, às aves do céu,
À primavera, ao coração sincero? 

Tua voz recordo na canção das fontes,

Teus olhos na estrela da madrugada;
Nossos caminhos por agrestes montes,
Nas pedras sangrentas de cada estrada.
 
Sempre a luz nasceu da noite mais fria,
Mas não há partida sem dor, amigo;
Pudesse, e de ti não me apartaria...
 
Hoje a bandeira do destino sigo.
Em sonhos buscarei tua companhia...
Sonha tu comigo, como eu contigo!                
Ana Ferreira da Silva


(6) O Silêncio num Mundo que Não Se Cala

Num mundo que não pára de falar,
o silêncio tornou-se raro.
Confundem-no com vazio,
com distância,
com ausência.
Mas o silêncio
nunca foi falta.
Há silêncios que curam.
Silêncios que amparam
sem exigir explicações.
Silêncios que ficam
ao lado da dor
quando as palavras
já não sabem o caminho.
Vivemos cercados de ruído:
vozes, pressa,
opiniões atiradas ao vento,
respostas antes da escuta,
frases ditas
só para não deixar espaço.
E, no entanto,
é no silêncio
que o coração respira melhor.
É nele que a verdade
se aproxima devagar.
É nele que o olhar
reaprende a ver.
É nele que a palavra
recupera o seu peso.
Talvez o verdadeiro valor do silêncio
esteja precisamente aí:
lembrar-nos,
no meio de tanto barulho,
que o essencial
não precisa de gritar. 
Inês Alhandra

  

(5) O SORRISO

O sorriso é sol de manhã
Clareia o coração.
É ponte leve e humana,
Nascida da emoção.
Cabe num gesto pequeno,
mas muda o dia inteiro.
É flor nascendo serena
no rosto de um companheiro.
Sorrir é dar sem cobrar,
é acender sem gastar luz —
um simples jeito de amar,
que o próprio amor conduz.

Maria Teresa Portal Oliveira


(4) as mulheres no caminho da paz


quantas crianças, quantos homens, quantas mulheres,
figuram na lista dos mortos,
pela força das armas,
                          lançadas sem razão,
                          (mesmo que razão houvesse).

os ribeiros não sabem das margens,
e os rios não são de paz.

talvez os únicos que ainda lutam,

                          sem carabinas, nem aviões,
                          nem os drones vorazes,
                          (novo negócio mercantilista)

que trucidam quem os lê,
mas não conseguem destruir a luta das mulheres.

afeganistão, ou irão, ou israel, ou ucrânia,

                           ou mesmo estados unidos da américa,
                           com a sua veracidade de comando.

não conseguem tapar os brilhos nos olhos da mulher,

lutando por si, pelos outros, pela paz,
elas são o caminho da paz.
joaquim armindo
8/3/2026

(3) e as mulheres igreja

ajoelham-se, oram,
cantam,
                        algumas embrulhadas em saco,
mas são força e luz da luz,
numa masmorra sem brilho.

estas mulheres são exploradas,
no seu ser,
                        e entendimento.

forçadas a não terem palavra,
são areia molhada pela água dos mares,
acolhem o coração, e ensinam a amar,
                        mas destruídas.

abençoadas, pelos gestos,
na comunhão dos dias,
são afastadas rudemente,
                        porque possuem verdade.

não querem ser líderes,
nem hierarcas,
mas servir, na comunidade,
                        por isso brilham como o Sol,
e são Lua noturna.

são o evangelho feito azeite,
e oliveiras com sal,
se lhes dessem a palavra,
seriam golfinhos,
a nadar de Palavra.
joaquim armindo
8/3/2016

(2) às mulheres sem nome e rosto

as carquejeiras,
                            que montavam sobre o seu corpo,
                            o carvão, desde o rio douro,
                            às fontaínhas,
numa íngreme calçada, apalpadas,
no seu corpo feminino,
pelo Porto fora,
                            distribuindo aos senhores
                            da terra,
                            o aquecimento,
pela noitinha em segredo,
                            era o jantar, deitar os meninos,
                                                            filhos ou netos,
e na cama, nem sentiam,
o que lhes estava preparado.


ou as leiteiras,
ou as padeiras,
ou as peixeiras,
                            não sentiam o que era a noite,
de dia vendiam o leite, o pão e o peixe,
às senhoras clientes,

                            que também não sabiam o que era a noite,
                           mas tinham de levar as marmitas aos homens,
                               ao meio-dia, de cada dia.

o poema não consegue contar,
o sacrifício das suas vidas,
onde as amendoeiras não davam flores,
os cravos não floriam,
os moinhos não moíam,
as uvas o vinho tinto.

mas sente o oito de março,
nas greves e nas mortes do quotidiano,
o sabor da pólvora que fere,
de morte das suas vidas.

joaquim armindo
8 de março de 2026

(1) MULHER


Chorei risos embrulhados em lágrimas,
lancei gemidos afogados no silêncio,
atirei ais às partes ignotas do vento.

Amarfanhei a alma no verde da paisagem
e esperei por um riso — miragem breve —,
um sorriso que surgisse de passagem
e ecoasse o meu amor
nos penedos e rochedos do teu mar.

Aspirei a mudez da tua boca,
que não soltou um sopro,
e emudeceu de vez o meu coração.

Ah! Alma da minha existência,
clarão na minha sombra,
ouvi dos teus passos a cadência —
mas recusaste dar-me sentido,
e deixaste-me na solidão.

Maria Teresa Portal Oliveira

2 comentários:

  1. Ana Ferreira da Silva25 de março de 2026 às 19:16

    Voto no nº 14 (Águas serenas) pela paz que transmite.

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  2. Muito obrigada. Veio com tanta tranquilidade que por pouco não nos chegava... Foi-lhe atribuído o número 1.

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