sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Margarida Haderer em entrevista




E continuamos a nossa série de entrevistas agora com Margarida Haderer, 63 anos, autora de alguns livros e com participações em várias colectâneas. A sua presença nesta  leva de entrevistas deve-se à particularidade de se ter tornado numa musa inspiradora para as nossas colectâneas tendo os seus textos dado nome a duas delas: "Em tons de Valsa aguarela-fogo" (conto com o mesmo título) e o mais recente "Natal, Natais" (do poema "Natal Natais").
É precisamente sobre esses textos que nos vai falar.

  Conte-nos como e porquê começou a escrever, por paixão ou por necessidade?
Comecei a escrever poesia e alguns contos curtos aos doze anos, diria que pelos dois motivos. Por paixão, porque me dava imenso prazer, de alguma forma por necessidade, porque serenava a minha alma de adolescente e, através das palavras soltava o meu “grito”. Escrita talvez demasiado intimista, mas qual não a é, mais ou menos? É o autor a descrever a sua visão da vida, das pessoas, do mundo, à sua maneira. Mesmo quando narra, narra à sua maneira.

  Qual o papel que a escrita ocupa na sua vida?
Uma espécie de vício, que me apazigua e me faz crescer, uma “bengala” que me ajuda a enfrentar o fluir da vida, nas suas alegrias e nos seus momentos mais difíceis. Escrevo por impulso, sonho poemas a dormir, e, quando os recordo ao acordar, corro a escrevê-los. Escrevo mais quando fujo da rotina e “hiberno” uns dias algures por esse Portugal. Escrevo por puro prazer. Adoro um bom desafio, como por exemplo, traduzir poesia para inglês. Só para mim cheguei a arriscar Fernando Pessoa e Florbela Espanca – um verdadeiro arrojo! E até gosto de, por graça, imitar a poesia trovadoresca. Enfim…

  Sempre sonhou publicar um livro?/Publicar um texto num livro?
Publiquei o meu primeiro texto em prosa no jornal da escola quando ainda estudante, aí pelos meus treze anos, inspirada no acontecimento do tremor de terra em 1967, salvo erro, que me tinha assustado muito. Curiosamente os meus poemas começaram a ser publicados, já como professora, no jornal da escola onde leccionei por volta de 30 anos. Não sonhei ao início publicar, de facto, mas fui influenciada nesse sentido por colegas e amigos. Mais tarde, sim, quis publicar um livro de poesia, talvez levada pelo cliché – fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Era mais um desafio – gosto de arriscar -, e também muito uma parcela de realização pessoal.

  Qual é a sensação que tem ao ver, agora, o seu livro nas mãos?/O que significa para si ter o texto favorito dos leitores?
Os meus textos não foram os favoritos dos leitores em ambas as colectâneas. O que de todo não me desiludiu. Não considero a crítica o mais importante para um autor. Acredito na arte pela arte, desde muito jovem. Claro que ver os meus textos num livro e tê-lo na mão, “cheirá-lo” e saber que os meus “gritos” poderão ser os “gritos” mudos dos meus leitores, é reconfortante e faz-me feliz. Nunca tive a pretensão de ser uma escritora famosa e viver da escrita, é claro. Sejamos realistas. Escrever e partilhar, ainda que com poucos leitores, já me consegue preencher.

  Tem algum projecto a ser desenvolvido, actualmente? Pensa publicar mais algum livro? Continua a sentir vontade de escrever
Costumo dizer que escreverei até que a voz me doa e a caneta me pese na mão. Terei sempre essa” aflição” dentro do peito. Contudo, para já, tendo conseguido publicar três livros de poesia, tenho-me ficado e ficarei como co-autora em colectâneas várias, que considero uma mais-valia para o mundo literário português, uma forma muito meritosa de dar a conhecer novos autores. Um novo livro, talvez um dia. Não fecho totalmente a porta. Contudo, é difícil porque dispendioso, lançar uma edição de autor. As editoras, é claro, só publicam edições suas em casos muito especiais, infelizmente nem sempre atendendo à qualidade, mas por vezes preocupando-se com o protagonismo do autor, seja ele uma figura do espectáculo ou da televisão, ou tão só o parente de um famoso. Coisas… O que conta é o seu próprio lucro.

  -O que inspirou o seu texto (indique se é conto ou poema)?
No conto Em tons de valsa aguarela-fogo parti de vivências pessoais que apimentei com fantasia e imaginação. Gosto de histórias suspensas, abertas a diferentes interpretações por parte dos leitores. Gosto de “tocar” no espiritual, e também muito de associar a vivência humana à natureza. Somos filhos dela. A minha escrita é muito contemplativa, muito sonhadora, muito atrevida no imaginário. Neste conto abordo quatro formas de arte: a pintura, a música, a dança, o teatro e, claro, a escrita, como forma.
No poema Natal Natais parto também de vivências pessoais, que penso serem também as vivências de muitas outras pessoas. Ultrapasso a tradição de cariz mais religioso, definindo o Natal como uma vivência de união, calor humano e partilha, desejando que os Natais sejam eternos e se repitam sempre, vividos dentro do espírito do nascimento… de um novo renascer mais humano e envolvente: Natal é ser presente”. Diria que o poema fala de memórias, de sentires e de esperança.

  Existe alguma parte do livro, em particular, que goste mais. Porquê?
No conto gosto em particular das últimas linhas. Penso que fecham a história com chave de ouro e deixam muito em aberto ao leitor. Dão que pensar, imaginar, fantasiar, sonhar e questionar sobre a efemeridade da vida humana, como que sem princípio e sem fim. Pressente-se uma certa amargura em relação ao ciclo da vida, à morte, como se tudo ficasse incompleto, e subentende-se o desejo íntimo de que cada vida se prolongasse ou completasse numa outra. Após a morte da protagonista, única no conto: “Desce então a cortina sobre o palco de Moliére. Descansa finalmente o ponto. Reaparecem uma última vez os actores, mão na mão, personagens secretos de mil vidas vividas ou sonhadas. Os aplausos, esses, são silenciosos. Apenas se ouve em surdina um trecho de Strauss – uma das suas mais belas valsa .” Em jeito de conclusão, cito Shakeaspeare: “All the world is a stage and we merely players.”

  Indique as razões pelas quais aconselharia as pessoas a ler os seus /textos? O que acha mais apelativo nos seus textos?
É-me difícil responder objectivamente. Talvez o poderem ver-se a elas próprias, nos seus anseios, alegrias e tristezas. Gostaria de despertar nos leitores o apego à natureza, a importância subtil da contemplação neste mundo frenético em que vivemos, onde tudo se olha mas nada ou pouco se vê. Parar e reflectir, sonhar de quando em vez, mas seguir em frente, projectando-se na vida e nos outros, com uma certa aura de encantamento que atenua os estragos provocados pelas tempestades mais agrestes.

  Qual é o seu estilo de escrita ou que tipo de mensagem gosta de passar no que escreve?
Penso que a minha poesia bem como os meus escritos em prosa, talvez poética, desce aos degraus mais profundos da existência humana, nos seus altos e baixos. Penso que de alguma forma enalteço a riqueza/pobreza do ser humano neste emaranhado de viveres e sentires que é o nosso percurso de vida. Gosto de pensar e de abrir a porta ao pensamento e à reflexão. Gosto de viver e de sentir. Assim todos gostássemos…

  Qual o papel das redes sociais na vida e na divulgação da obra de um autor? E na sua?
As redes sociais são importantes. O problema é chegar até elas. O escritor amador tem que ser o seu próprio obreiro, e muitas vezes, não sabe como operar. Tem que mover-se frequentemente sozinho e nem sempre é bem acolhido. Confesso que tenho tido bastantes dificuldades em dar visibilidade ao que escrevo.Também é verdade que algumas editoras, mais ou menos conhecidas, oferecem algum ou muito incentivo, bem como orientação, como a vossa. Talvez um curso intensivo… Tendo há muitos anos atrás tentado a ajuda de uma personalidade conhecida na área da poesia, sofri um rude golpe e, para além de NADA, fui mais tarde plagiada num breve programa de rádio. Uma mancha negra no meu percurso. Mas aprendamos com os nossos erros!

  Gosta de ler? Que tipo de leitor é que é?
As minhas leituras são muito diversificadas. Vou da poesia clássica à moderna, dos autores portugueses clássicos aos actuais, aos estrangeiros na poesia ou na prosa. Salto do romance ao policial, nunca o político, pouco o livro histórico. Aprecio uma boa história de amor, delicio-me com uma boa saga familiar, mas também me encanto facilmente com livros que relatam vidas e vivências fortes que têm ou tiveram lugar em determinados períodos da História, nesta ou naquela parte do mundo, em épocas mais longínquas ou mais próximas. Também tenho o hábito de ler um mesmo livro mais do que uma vez, alguns já lidos na juventude, aos quarentas e mais recentemente pelos sessentas. Como é lógico, de cada vez o “vejo” com olhos diferentes. Em suma, gosto de ler, sempre gostei, mas estranhamente ou não, à parte a pretensão de ser diferente ou original, não me recordo de ser influenciada por este ou aquele escritor.








Em tons de Valsa aguarela-fogo - Colectânea de Contos – Vários autores
128 páginas, capa mole; Tecto de Nuvens, 2017,  PVP 12€









Natal, Natais - Colectânea de Poesia – Vários autores
70 páginas, capa mole; Tecto de Nuvens, 2018  PVP 9,00 €








Títulos da autora no catálogo Tecto de Nuvens







De Amore, Margarida Haderer
68 páginas, capa mole; Tecto de Nuvens, 2009, PVP 8,07€










Voltei, Margarida Haderer
80 páginas, capa mole; Tecto de Nuvens, 2009, PVP 8,07€





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