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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Nina Pianini, autora de "O Nascer do Soninho... ", em entrevista

 

Nina Pianini continua a encantar-nos com as suas palavras, não só as que publica em livro, mas também as que deixa aqui no blogue.
Desta vez, visita-nos enquanto "Avó Nina" para falar do livro que escreveu para oferecer ao seu neto "O Nascer do Soninho... do amanhecer ao adormecer", uma poesia cheia de amor e de carinho, e também muitas outras coisas boas para a saúde (em todos os sentidos da palavra do bebé). Um livro que é muito mais do que um livro, é toda uma mala de ferramentas.
Não contente com os ensinamentos do livro, a "Avó Nina", 63 anos, termina esta entrevista com uma bela joia para profunda, e actual, reflexão; "A paz começa no colo."
Mas antes de chegarmos ao fim, comecemos pelo início e deixemos que a autora apresente este seu mais recente livro.
Nina Pianini, por voz própria e na primeira pessoa: 



  Este seu novo livro é, literalmente, uma prenda da “avó Nina” para o seu neto. É, pois, da mais elementar justiça, perguntar se ele gostou. E também saber, porque aqui não é ofensa, se ele adormeceu ao ouvir esta história/poesia do Soninho. Como foi?


Foi uma experiência inesquecível e que recomendo intensamente: escrever para nossos filhos ou netos é a prenda mais personalizada que podemos oferecer. Curiosamente parece à partida ser mais fácil, pois escrevemos para quem conhecemos melhor; sabemos de que personagens e pressupomos o efeito que terão neles. Neste caso, o objetivo era que ele adormecesse, mas o livro «O Nascer do Soninho» revelou-se um desafio fascinante. Mal o viu, sentou-se no meu colo em silêncio. Interrompia apenas com o seu: “blá-blá”. Quando terminei, em vez de fechar os olhos, ele tirou-me o livro das mãos para o ver de perto, “dialogando” com as páginas. Depois, entregou-mo e encostou-se de novo, à espera… percebi que queria a repetição. Li e reli acompanhando com gestos que o texto sugeria, e ele divertia-se a imitar, levantando o dedo para o céu. À terceira ou quarta leitura, ao perceber o final, ele fechou o livro com as suas mãos branquinhas e deu um beijinho na contracapa. Quando o deitei, pela primeira vez não reclamou. A magia do “Soninho” aconteceu: primeiro encantou-o, depois sossegou-o. Adormeceu e não acordou a noite toda!


  Aborda uma questão muito dominante na sociedade contemporânea (as anteriores também dormiam, naturalmente, mas mais vulcão, menos besta, mais guerra, menos tempestade, pareciam ter a arte dominada): o sono. A importância do sono, a ciência do sono, o ritual do sono… E, como em tudo, é de pequeno que se começa. E esta introdução serve para também para referir o elefante no meio da sala: é um pequenino livro e custa 25€. Contudo… Qual o preço de uma boa noite de sono para o bebé e para os pais? Quanto custa o “gadget” com que se entretêm as crianças enquanto se lhe queimam os neurónios ainda em formação (há cada vez mais, e mais assustadores estudos sobre o assunto)? Eu vou deixar que seja a Nina a começar por apresentar os aspectos tridimensionais do livro (da facilidade de transporte à durabilidade do material) e depois falar de todo o conceito para este livro.


Tocamos aqui num ponto essencial: o bem-estar da criança não tem preço. Tal como escolhemos o carrinho de bebé mais seguro, investir num livro é uma forma de cuidado.

Em Portugal, a “mãe do sono”, é a nossa querida Prof. Dra. Teresa Paiva, médica neurologista que tanto contribuiu connosco para valorizar o sono como pilar do sucesso escolar. Ela empenhou-se energeticamente no projeto SOBE+, uma iniciativa conjunta da RBE, PNL e DGS que hoje integra a “Higiene do sono”. O sono não é mero descanso; é quando o cérebro “se arruma”.

Pude observar o meu neto, que fala inglês, enquanto dormia, dizer: “céuuuu” (palavra que apreendeu no livro).

Sobre o preço de venda do livro «O Nascer do Soninho», pergunto: Porque é a cultura um artigo de luxo em Portugal? Porque não se percebe que ler dá saúde? O preço de uma má noite de sono é o stress parental. O preço deste livro é o investimento na paz familiar e na saúde neurológica. Ao contrário do “queimar dos neurónios” dos ecrãs (Lissak) que inibe a melatonina, este livro oferece “Atenção partilhada” (Michael Tomasello) o motor da linguagem e da empatia.

O conceito é como lavar os dentes: lê-se este livro antes da sesta ou da noite, criando um ritual onde o ritmo da poesia acalma o sistema nervoso e o contato físico reduz o cortisol.

 

  Não querendo impor a resposta anterior, nem pressupondo em demasia o que possa ter respondido, deixo como pergunta complementar: o livro é uma excelente prenda? Se 2 ou 3 pessoas se juntarem para a oferecer, rapidamente se verá para lá do tamanho do livro ou de ser uma coisa só vs um monte de coisas?

Posso ilustrar com uma situação recente: num baby shower, ofereci o livro «O Nascer do Soninho» e a mãe disse-me: “Obrigada, foste a única a pensar no meu bebé.” Ela explicou que recebeu fraldas e roupa - que dão conforto, é certo – mas raramente algo para o fazer feliz.

O conceito de “slow parenting” defende que a criança precisa menos “coisas” e mais momentos. Oferecer este livro é dizer aos pais: “Nós valorizamos o tempo de qualidade da vossa família”. É oferecer um património emocional.

 

   Pode parecer ironia, mas na verdade, é a genialidade dele: é também um excelente livro para quando o bebé está acordado e pode ainda acompanhar a criança uns bons anos e servir para aprender a ler. No entanto, se para pessoas com mais de 40 anos que ainda mantém vários livros e alguns brinquedos da sua infância (que se revisitam com gosto e que apesar de bem manuseados, claramente foram estimados por serem favoritos), pessoas mais novas parecem ter perdido por completo a ligação, ou talvez nunca a tenham tido. Enquanto autora, mãe e avó, tem uma teoria sobre isso? (Mais do que a editora, a cidadã que faz as perguntas, nunca percebeu o conceito “livro lido é livro despachado” e similares. Ler e reler faz parte do prazer da leitura, não é sinal de falta de originalidade ou de falta de meios. Nem ter montanhas de coisas é necessariamente uma coisa boa se a única coisa que fomenta é o desprendimento.)


Um livro não se gasta, ganha histórias (do livro, do texto, do leitor e de todos que influencia). Na psicologia do objeto transicional, o livro físico é uma ponte que cria o sentimento de continuidade do “eu”.

Infelizmente, a cultura do “livro lido é livro despachado” é típico desta era de “fast (food) and easy reading”, mas o termo “despachado” também se acentuou com a forçada imposição de “despachar matéria” de uma “old- school” que impôs obras como obrigação de leitura e, por vezes, até como ferramenta de gramática sem dar tempo para a reflexão-crítica. Isso tira o prazer de ler! Se não dermos liberdade de escolha e tempo para refletir, como evitaremos o desprendimento? Este livro «O Nascer do Soninho» nunca será um brinquedo descartável; ele é um companheiro de viagem que cheira a memórias, mas que olha para o futuro abrindo-nos portas para novas posturas perante a leitura.


  Ilustrou esta história. Gostou? É experiência para repetir? Quais os objectivos na escolha deste estilo de desenho e na paleta de cores?


Foi um reencontro maravilhoso com as formas e as cores. A literatura e a pedagogia sempre foram as minhas paixões, e a arte surgiu como algo inerente aos livros; a criatividade une tudo. Houve uma altura em que estudei várias técnicas - óleo, pastel, porcelana…- pois sempre adorei aprender. No entanto, há uns anos, parti a mão direita e acabei por deixar os pincéis.

Para este livro «O Nascer do Soninho», senti que a ilustração exigia um conhecimento de psicopedagogia que nem sempre é fácil para um ilustrador sem prática pedagógica. Por isso, não tive alternativa: tive de ser eu a ilustrar. E se fiquei com o “bichinho”?  Fiquei, sim! Já tenho outro ilustrado à espera do momento oportuno. Para quem ama escrever, nunca há impossíveis. 

 

  E para o caso de ainda não estar claro ou de alguém ter começado a ler esta entrevista por esta pergunta (eu não julgo, sempre li as revistas da página final para a inicial.) … Indique as razões pelas quais aconselharia as pessoas a ler/comprar o seu livro? O que acha mais apelativo nele?


Para resumir, destacaria três razões para se adquirir o livro «O Nascer do Soninho»:

a) Investimento em saúde e harmonia: É uma ferramenta de regulação emocional e de higiene do sono. Investir neste livro é investir numa noite tranquila para toda a família.

b) Alfabetização do afeto: Educa para o amor antes de se saber ler as palavras. O livro foi desenhado para o colo, incentivando o bebé a ser um participante ativo que aponta e palreia.

c) Um património para a vida: Foi pensado para crescer com a criança – do indutor de sono à leitura autónoma. O seu maior mérito é ter nascido de uma necessidade real e ter sido testado com amor. É um livro que não se despacha; guarda-se para sempre.

 

  A menos que o neto a tenha despedido como autora favorita, imagino que vá haver mais prendas como esta. A temática dos livros vai crescer com o seu neto?


O meu neto é um corredor incorrigível e um construtor nato, mas quando vê um livro, larga tudo. Senta-se em silêncio a apreciar página a página. Com menos de dois anos, já seleciona os favoritos e traz-nos por ordem de preferência! Tornou-se o meu maior educador.

Nas viagens longas entre o Norte de Inglaterra e Londres, ele mostra-me os pormenores das páginas como se fosse “gente crescida”. Com ele, reaprendo a ver o mundo. Escrever para ele é um desafio enorme; as crianças são o público mais exigente e perfeccionista que existe. Ser apenas “boa” não basta; elas merecem o nosso melhor.

 

  Finalmente. É uma pessoa viajada, dividindo o seu tempo entre Portugal e outros países. Vendo o mundo, mais uma vez, às cabeçadas, pergunto-lhe se acha que faltaram a estas personagens que nos arrastam para o caos umas boas histórias lidas/contadas/escritas por uma avó? Podemos fazer da literatura uma espécie de profilaxia para garantir uma paz futura?


Adorei esta pergunta. Ao viajar, percebemos as diferenças culturais no que toca ao lado humano. E tenho de elogiar que o país que destaco é Inglaterra. Nos outros países não se vê esta ligação forte à leitura como lá, a leitura está intrínseca à sua forma de estar. A sua visão alarga-se não só às espetaculares bibliotecas em que se pode almoçar a ler um livro e num andar ver uma exposição de um autor e noutro andar comprar uma lembrança da biblioteca, é também porque nos pequenos lugarejos há uma cultura de leitura que se presencia empolgante. Acompanho o seu trabalho exemplar de promoção da leitura: é comum ver pais vindos do trabalho, ainda com a roupa suja, sentados na alcatifa da biblioteca com os filhos, lendo em harmonia. É um ritual que atravessa todos os estratos sociais.

O livro é a ponte que constrói o afeto. Se esse carinho partilhado falha no berço, a criança cresce com uma lacuna emocional. Quem não sabe amar, gera conflitos; e os grandes conflitos nascem desse vazio de empatia. Quando partilhamos um livro, a criança sente: “Eu tenho valor, alguém cuida de mim”. Sem esse “alfabeto do afeto”, é difícil escrever a paz ou conhecer a gramática da compaixão. Cada vez que uma criança adormece tranquila com uma história, estamos apacificar o futuro. Adultos que foram preenchidos pelo carinho de uma página não sentirão necessidade de destruir o mundo para serem vistos. A paz começa no colo.




Pode obter mais informações sobre o livro aqui.

Pode ler ou reler as outras entrevistas da autora aqui, aquiaqui e aqui.









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